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Conflito ambiental na Serra da Chapadinha ameaça a segurança hídrica de diversas cidades da Bahia

14 de Maio de 2026 às 15:24

A Serra da Chapadinha, área de 18 mil hectares essencial para a recarga do rio Paraguaçu, sofre pressões de mineradoras e grileiros. O conflito resultou em um ataque armado ao posto Toca do Lobo, onde pesquisadores foram rendidos e equipamentos destruídos. A Secretaria de Meio Ambiente da Bahia estuda a criação de uma unidade de conservação na região

Conflito ambiental na Serra da Chapadinha ameaça a segurança hídrica de diversas cidades da Bahia
Água da Serra da Chapadinha, na Bahia, pressiona rio Paraguaçu e Salvador em disputa por conservação ambiental.

A preservação da Serra da Chapadinha, no sul da Chapada Diamantina, tornou-se o centro de um conflito ambiental com repercussões que atingem a segurança hídrica de grande parte da Bahia. Localizada entre os municípios de Ibicoara, Mucugê e Itaetê, a área de 18 mil hectares é fundamental para a recarga do rio Paraguaçu, curso d'água que abastece cerca de 80 cidades e é a fonte de 60% da água consumida na região metropolitana de Salvador, via barragem de Pedra do Cavalo.

A relevância estratégica da região reside em sua composição de turfeiras, brejos naturais, altitude e mata preservada, elementos que permitem ao ecossistema reter e liberar água gradualmente. A degradação desse sistema compromete a capacidade de filtragem e regulação hídrica, agravando a vulnerabilidade de áreas semiáridas. O cenário é crítico, visto que o rio Paraguaçu registrou a perda de metade de sua vazão nos últimos 50 anos, impactando o planejamento urbano, a economia e o abastecimento humano.

Atualmente, a Serra da Chapadinha é alvo de pressões exercidas por mineradoras, fazendeiros e grileiros interessados na exploração de recursos naturais. Esse avanço econômico ameaça a biodiversidade local, que abriga espécies endêmicas como o guigó-da-caatinga, além de onças-pardas e pintadas. A fragmentação da vegetação nessas áreas interrompe corredores ecológicos, reduzindo habitats e colocando em risco a sobrevivência de populações animais.

A tensão na região escalou para a violência no dia 30, com um ataque ao posto avançado Toca do Lobo. O local, que integra uma reserva da biosfera da Mata Atlântica reconhecida pela UNESCO e serve como base para pesquisadores, foi invadido por homens armados. Os ambientalistas Aice Corrêa e Marcos Fantini, que residem na área desde 2019, foram rendidos, e equipamentos de energia solar e comunicação foram destruídos. Durante a ação, os invasores questionaram se a atuação dos defensores estaria impedindo o progresso da região, evidenciando que a disputa transcende a questão técnica e envolve intimidação física.

Para enfrentar esse cenário, a Secretaria de Meio Ambiente da Bahia conduz, desde 2023, estudos técnicos e audiências com a população local para a criação de uma unidade de conservação. O processo está em fase final, com a previsão de uma consulta pública para junho de 2026, momento em que serão definidos os limites e a categoria da área protegida.

Entre as propostas, ambientalistas defendem a implementação de um refúgio de vida silvestre. Esse modelo permitiria a coexistência de áreas públicas e privadas, mantendo atividades já estabelecidas, desde que não conflitem com os objetivos de conservação. O objetivo central é garantir a proteção rígida das zonas mais sensíveis para assegurar a função hídrica da serra e a estabilidade climática regional.

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