Brasil

Congregação que rejeita reformas do Vaticano planeja nomear novos bispos sem autorização da Santa Sé

23 de Junho de 2026 às 06:19

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X nomeará novos bispos no dia 1º de julho, em Écône, na Suíça. A ação ocorre sem a autorização da Santa Sé, que prevê excomunhão para sagrações realizadas sem consentimento papal

Congregação que rejeita reformas do Vaticano planeja nomear novos bispos sem autorização da Santa Sé
Reprodução/BBC

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), congregação que rejeita as reformas modernistas do Vaticano implementadas na década de 1960, planeja a nomeação de novos bispos para o dia 1º de julho, em Écône, na Suíça. A iniciativa ocorre apesar da ausência de autorização da Santa Sé, que já alertou que sagrações sem consentimento papal serão interpretadas como ruptura formal com a Igreja e punidas com a excomunhão.

O conflito central remete ao Concílio Vaticano 2º (1962-1965), assembleia que alterou a liturgia católica ao substituir o latim pelos idiomas locais, incentivar a leitura da Bíblia por leigos e abrir diálogo com outras religiões e a liberdade de consciência. Em reação a esse movimento progressista, o arcebispo francês Marcel Lefebvre fundou a FSSPX em 1970, na Suíça, com o objetivo de formar sacerdotes adeptos do modelo tradicional e medieval de Igreja.

A tensão entre a congregação e o Vaticano culminou em 1988, quando Lefebvre foi excomungado após nomear quatro bispos sem a permissão do papa João Paulo 2º. Mesmo com a proibição de participar da comunhão e de outros sacramentos, a FSSPX expandiu sua atuação globalmente, alcançando a América do Sul via Argentina e consolidando-se no Brasil nos últimos 20 anos, impulsionada pelo crescimento de alas conservadoras no país.

No território brasileiro, a chegada da Fraternidade esteve ligada à Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, que também celebrava a missa tridentina em latim. Enquanto a Diocese de Campos reconciliou-se com a Santa Sé em 2002, aceitando o Concílio Vaticano 2º em troca da permissão para manter a liturgia tradicional, parte dos fiéis locais rejeitou o acordo e solicitou a atuação da FSSPX no Brasil.

Atualmente, a congregação opera em 14 capelas distribuídas por quatro regiões do país, com presença em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará, Piauí e Maranhão. O grupo, que conta com cerca de 700 padres e um milhão de fiéis mundialmente, mantém a tradição de celebrar missas em latim, com o sacerdote de costas para a assembleia e a exigência de vestimentas sóbrias, como lenços de renda para cobrir os cabelos de mulheres e meninas.

Embora a FSSPX esteja em situação canônica irregular, o Vaticano tem buscado a reconciliação, motivo pelo qual os membros ainda são considerados católicos. No entanto, a insistência na nomeação de novos bispos coloca à prova a postura do papado de Leão 14. A tendência é que a Santa Sé mantenha a exigência de aceitação do Concílio Vaticano 2º como condição para a regularização, o que deve resultar em novas excomunhões para os bispos e sacerdotes envolvidos na cerimônia na Suíça.

Notícias Relacionadas