Ação humana acelera a decomposição de matéria orgânica e transforma rios em emissores de gases
Estudo de maio de 2024 na revista Science analisou 550 rios e constatou que o aquecimento das águas e a poluição por nutrientes aceleram a degradação orgânica. A pesquisa, com participação de 40 países, indica que esse fenômeno transforma os cursos d'água em fontes de gases de efeito estufa. Os resultados permitiram a elaboração de um mapeamento global da velocidade de decomposição
A primeira análise global sobre a alteração do funcionamento dos rios revelou que a ação humana está acelerando a decomposição de matéria orgânica, transformando esses ecossistemas em fontes emissoras de gases de efeito estufa. O levantamento, publicado na revista Science em maio de 2024, resultou na criação de um mapa mundial de taxas de decomposição. A pesquisa foi coordenada por cientistas das universidades da Geórgia, Oakland, Kent State e William & Mary, com o apoio de mais de 150 pesquisadores de 40 países integrantes do Consórcio Celldex. Para a construção do estudo, foram analisados 550 rios, abrangendo inclusive regiões tropicais brasileiras, que historicamente eram negligenciadas em levantamentos globais.
A metodologia consistiu na imersão de pedaços padronizados de tecido de algodão, composto por celulose — a mesma substância presente na matéria orgânica vegetal. A medição da velocidade de degradação desse material permitiu estimar a atividade microbiana e, consequentemente, o volume de gases liberados na atmosfera, estabelecendo que quanto mais rápida a decomposição, maior a emissão de poluentes.
O processo evidencia a dinâmica do ciclo do carbono: a vegetação terrestre captura dióxido de carbono e o converte em matéria orgânica, que é transportada para os rios. A partir desse ponto, o carbono segue dois caminhos: ou é levado aos oceanos, onde permanece armazenado por longos períodos, ou é decomposto por microrganismos aquáticos, liberando metano e CO₂.
Dois fatores principais impulsionam a aceleração dessa decomposição. O primeiro é a poluição por nitrogênio e fósforo, oriundos de esgoto urbano e fertilizantes agrícolas, que servem como combustível para fungos e bactérias. No Brasil, esse cenário é agravado pelo uso anual de mais de 13 milhões de toneladas de fertilizantes, cujos nutrientes são carregados para os cursos d'água. O segundo fator é a elevação da temperatura da água, potencializada pelo aquecimento global e pelo desmatamento de matas ciliares. De acordo com a lei de Van’t Hoff, um incremento de 10°C pode dobrar a velocidade das reações biológicas.
Os rios tropicais surgem como as áreas mais críticas do ciclo do carbono devido à combinação de temperaturas elevadas, alta carga de poluentes e intensa atividade biológica. Complementando esses dados, um estudo divulgado pela revista Nature em 2025 indicou que 59% das emissões de CO₂ fluviais provêm de carbono antigo, armazenado por milênios em formações geológicas e solos. Esse carbono é mobilizado e liberado na atmosfera por meio de erosão, perturbações do solo e desmatamento, ativando reservas que antes permaneciam estáveis.
A rapidez na decomposição compromete a base da cadeia alimentar aquática. A redução da matéria orgânica disponível impacta a sobrevivência de peixes e insetos aquáticos, prejudicando a biodiversidade local. Nesse contexto, as matas ciliares são essenciais, pois controlam a temperatura via sombreamento e fornecem matéria orgânica de qualidade, enquanto sua remoção expõe os rios a maior radiação solar e a cargas elevadas de sedimentos.
Os dados, processados por modelos de aprendizado de máquina, alimentam uma ferramenta online que permite visualizar as taxas de decomposição globalmente. O mapa identifica as zonas de maior intensidade do processo, destacando as regiões de forte atividade agrícola no Brasil. O fenômeno reflete a interação combinada entre mudanças climáticas, poluição, desmatamento e uso intensivo do solo.