Ciência

Alemanha manifesta disposição em devolver ao Brasil crânio de dinossauro extraído no Ceará

25 de Maio de 2026 às 09:05

A Alemanha manifestou a intenção de devolver ao Brasil o crânio do dinossauro Irritator challengeri, fóssil do Ceará adquirido ilegalmente em 1991 pelo Museu Estatal de História Natural de Stuttgart. A decisão foi anunciada em declaração conjunta durante visita do presidente Lula ao país em abril. Detalhes sobre a entrega serão discutidos entre as nações nos próximos meses

Alemanha manifesta disposição em devolver ao Brasil crânio de dinossauro extraído no Ceará
Kabacchi/CC/Wikipedia

O governo da Alemanha manifestou disposição em devolver ao Brasil o crânio do dinossauro *Irritator challengeri*, fóssil de aproximadamente 113 milhões de anos extraído da Chapada do Araripe, no Ceará. O anúncio ocorreu por meio de uma declaração conjunta entre os dois países durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Alemanha, em abril. O exemplar, que pertence ao grupo dos espinossaurídeos, havia sido adquirido ilegalmente em 1991 pelo Museu Estatal de História Natural de Stuttgart.

O *Irritator challengeri* era um carnívoro de cerca de 6,5 metros de comprimento que habitou a Terra durante o período Cretáceo. Considerado o crânio de espinossaurídeo mais completo do mundo, o fóssil possui um valor científico inestimável para a dinossaurologia. No entanto, análises por tomografia computadorizada revelaram que contrabandistas adulteraram a peça para elevar seu valor de mercado, utilizando gesso e massa automotiva para alongar o focinho. O nome da espécie, *challengeri*, homenageia o personagem do livro "O Mundo Perdido", de Arthur Conan Doyle.

A possibilidade de repatriação ganhou força em 2023, impulsionada pela devolução anterior do *Ubirajara jubatus*, outro fóssil da Chapada do Araripe que estava em Karlsruhe e agora integra o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri. O movimento pelo retorno do *Irritator* envolveu a assinatura de mais de 34 mil pessoas em uma petição online e uma carta aberta enviada ao Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes de Baden-Württemberg, assinada por 268 profissionais, entre paleontólogos e juristas.

Embora as autoridades alemãs tenham resistido inicialmente, alegando que a compra de um comerciante privado em 1991 tornava o museu o proprietário legítimo sob a lei local, a posição mudou para favorecer a cooperação científica. O Ministério de Baden-Württemberg informou que os detalhes da entrega serão discutidos com o Brasil nos próximos meses, embora o museu de Stuttgart mantenha que não há obrigação legal para a devolução.

O caso evidencia a ilegalidade da exportação da peça, já que a legislação brasileira, desde 1942, define fósseis como propriedade da União, proibindo a comercialização por particulares. Além disso, a Convenção da Unesco de 1970, vigente desde 1972, combate o tráfico ilícito de bens culturais.

Para a comunidade científica, a disputa reflete o "colonialismo paleontológico", onde materiais de regiões com baixo desenvolvimento humano, como o sertão nordestino, são levados para o Norte Global. Estima-se que a Alemanha possua ao menos 90 peças da Serra do Araripe e o Japão detenha 12 exemplares. A recuperação do fóssil é vista como uma forma de reverter esse processo, permitindo que o patrimônio fomente a pesquisa e o turismo científico local.

O Itamaraty classificou a restituição como uma vitória para a ciência nacional. O retorno ocorrerá por meio de um mecanismo bilateral de cooperação em paleontologia, cujos termos e prazos, bem como o local definitivo de exposição no Brasil, ainda estão sendo definidos.

Notícias Relacionadas