Ciência

Amostras de gelo da Antártida confirmam que a Terra acumula detritos de estrelas explodidas

15 de Maio de 2026 às 06:12

Pesquisadores do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf identificaram ferro-60 em amostras de gelo da Antártida com idade entre 40 mil e 80 mil anos. O estudo indica que a Terra coleta detritos de supernovas armazenados na Nuvem Interestelar Local. A concentração atual do isótopo é maior do que a registrada no período analisado

Amostras de gelo da Antártida confirmam que a Terra acumula detritos de estrelas explodidas
Terra atravessa cinzas de supernova antiga e cientistas encontram ferro-60 radioativo no gelo da Antártida com até 80 mil anos, confirmando a origem cósmica.

A análise de amostras de gelo da Antártida com idade entre 40 mil e 80 mil anos confirmou que a Terra está acumulando detritos de uma estrela que explodiu há milhões de anos. A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional do Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (HZDR), na Alemanha, identificou a presença de ferro-60, um isótopo radioativo raro que não ocorre naturalmente no planeta e é produzido exclusivamente no interior de estrelas massivas, sendo lançado ao espaço durante supernovas.

O estudo, publicado na revista Physical Review Letters, demonstra que a Nuvem Interestelar Local, estrutura que envolve o Sistema Solar, atua como um reservatório desse material. A detecção do isótopo no gelo antártico comprova que o planeta coleta essas cinzas estelares à medida que se desloca por essa nuvem. Essa descoberta resolve a incerteza sobre a origem do ferro-60 encontrado anteriormente em sedimentos marinhos e neve recente, já que não houve explosões de supernovas próximas à Terra em tempos recentes.

Para validar a hipótese de que a nuvem interestelar armazena e libera gradualmente esse material, os pesquisadores processaram cerca de 300 quilos de gelo, fornecidos pelo projeto europeu EPICA e provenientes do Instituto Alfred Wegener. Após um rigoroso tratamento químico, a massa foi reduzida a algumas centenas de miligramas de poeira. A precisão da análise foi viabilizada pelo Acelerador de Íons Pesados da Universidade Nacional da Austrália, único equipamento capaz de isolar átomos individuais de ferro-60 em amostras que contêm trilhões de outros átomos.

A metodologia incluiu a verificação prévia com os isótopos berílio-10 e alumínio-26 para assegurar que não houve perda de material durante o processamento. Annabel Rolofs, pesquisadora da Universidade de Bonn, comparou a complexidade da busca por esses átomos a localizar uma agulha em 50 mil estádios de futebol lotados de feno, operação que o acelerador realiza em aproximadamente uma hora.

Os dados revelaram que a concentração de ferro-60 que atinge a Terra atualmente é superior à registrada no período de 40 mil a 80 mil anos atrás. Essa variação sugere que o Sistema Solar está atravessando regiões de densidades distintas dentro da Nuvem Interestelar Local ou que se encontra em uma área com maior acúmulo de detritos. Segundo Dominik Koll, do HZDR, a rapidez com que o sinal do isótopo muda em escalas de dezenas de milhares de anos descarta a possibilidade de o material ser proveniente de explosões extremamente antigas que estariam se dissipando lentamente.

A evidência indica que o Sistema Solar ingressou na Nuvem Interestelar Local há várias dezenas de milhares de anos e que a Terra está agora próxima à borda externa dessa estrutura, com a previsão de que o sistema saia dela nos próximos milênios. Como etapa seguinte, a equipe pretende analisar núcleos de gelo ainda mais remotos através do projeto Beyond EPICA. A ausência de ferro-60 em amostras anteriores à entrada do Sistema Solar na nuvem servirá como a confirmação final de que a estrutura interestelar é a fonte exclusiva desses resíduos estelares.

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