Análise de DNA reconstrói a trajetória genética de bovinos isolados na Ilha de Amsterdã
Análise de DNA de bovinos que viveram isolados na Ilha de Amsterdã revelou origem híbrida entre raças taurinas e zebuínas. O estudo indicou que o porte reduzido dos animais era herdado e não fruto de nanismo insular. O rebanho foi erradicado para proteger a flora e a fauna nativas da região

A análise de DNA de tecidos preservados em laboratório permitiu reconstruir a trajetória genética de um rebanho de bovinos que viveu isoladamente na Ilha de Amsterdã, no Oceano Índico, desde meados do século XIX. O grupo, originado de apenas cinco animais, permaneceu sem assistência veterinária, manejo ou reposição genética por mais de cem anos, sobrevivendo em um ambiente subantártico caracterizado por ventos fortes, terreno irregular e escassez de água doce.
O estudo do genoma revelou que os animais possuíam uma composição híbrida, com predominância de raças taurinas europeias e a presença consistente de linhagens zebuínas típicas de regiões do Oceano Índico. Essa característica indica que os bovinos já haviam passado por cruzamentos antes de serem introduzidos na ilha. A análise genômica também esclareceu que o porte reduzido dos animais, observado em remanescentes ósseos, não foi resultado de um processo rápido de nanismo insular, mas sim um padrão corporal herdado de suas raças de origem.
Apesar da consanguinidade inevitável decorrente do pequeno número de fundadores e do isolamento geográfico extremo, o que geralmente eleva o risco de mutações prejudiciais, os dados sugerem que a mistura inicial de linhagens e um período de crescimento rápido — que levou a população a atingir milhares de indivíduos em certas fases — ajudaram a mitigar a perda de diversidade genética.
Do ponto de vista ecológico, a presença desses grandes herbívoros em um habitat insular frágil gerou impactos significativos. O gado modificou o solo, consumiu vegetação nativa sensível ao pisoteio e prejudicou a reprodução de aves marinhas que nidificam no chão. Esse cenário criou um conflito entre o valor científico da população bovina e a necessidade de proteger espécies endêmicas e árvores raras.
Para viabilizar a restauração da flora nativa e a proteção da fauna local, gestores ambientais implementaram a retirada gradual do rebanho, culminando na erradicação dos últimos animais. Embora a fase feral da população tenha sido encerrada, as amostras genéticas continuam a servir como referência para pesquisas sobre a dinâmica de populações pequenas e os efeitos de introduções históricas em ilhas isoladas.