Ciência

Análise de gelo na Groenlândia revela que a poluição por mercúrio começou na Idade do Bronze

21 de Junho de 2026 às 06:08

Análise de núcleo de gelo na Groenlândia indica que a poluição humana por mercúrio iniciou na Idade do Bronze. O estudo, publicado na Science Advances, associa as emissões ao refino de metais e ao uso de cinábrio. A concentração do metal cresceu a partir do século XIII e acelerou após 1840

Análise de gelo na Groenlândia revela que a poluição por mercúrio começou na Idade do Bronze
Austin Carter/COLDEX

A análise de um núcleo de gelo extraído a 1.250 metros de profundidade na Groenlândia revelou que a poluição humana por mercúrio começou milênios antes da Revolução Industrial, remontando à Idade do Bronze. O estudo, publicado na revista *Science Advances* com a colaboração do Instituto de Química Física Blas Cabrera do CSIC, utilizou uma coluna de gelo que abrange quase todo o Holoceno, cobrindo um período de 11.700 anos até a atualidade.

Para obter os dados, a equipe do Projeto de Núcleos de Gelo do Leste da Groenlândia dividiu a amostra em fragmentos correspondentes a intervalos de cinco anos. Após a limpeza para evitar contaminações e o derretimento em laboratório, foi possível identificar sinais químicos da atmosfera antiga. A metodologia permitiu distinguir as emissões antrópicas de picos naturais causados por erupções vulcânicas, como as do vulcão Laki, na Islândia, em 1783, e de Novarupta, no Alasca, em 1912.

Os resultados indicam que práticas ancestrais, como o refino de estanho e cobre, além do uso do cinábrio — mineral rico em mercúrio empregado como pigmento vermelho e em tratamentos medicinais —, liberavam quantidades de metal tóxico capazes de marcar a atmosfera. Ari Feinberg, pesquisador do IQF-CSIC e autor do trabalho, associa esses achados a evidências arqueológicas da Península Ibérica, onde foram detectados altos níveis de mercúrio em ossos humanos. A presença desse sinal na remota região central da Groenlândia sugere que as emissões daquela época já eram elevadas o suficiente para se dispersarem por todo o hemisfério norte.

A progressão da acumulação de mercúrio no gelo acelerou ao longo dos séculos. Os dados apontam que a concentração do metal multiplicou-se por 2,7 a partir do século XIII e saltou para um fator de 7,4 após 1840, período que coincide com a industrialização.

A descoberta contribui para o aprimoramento de modelos de emissões e para a eficácia de acordos internacionais, como o Convenio de Minamata, vigente desde 2017. A precisão do registro é fundamental, pois o mercúrio se deposita em mares e continentes distantes de sua fonte, acumulando-se na cadeia alimentar marinha e atingindo seres humanos através do consumo de peixes de grande porte, como o atum.

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