Ciência

Análise de pó cósmico revela a existência de corpo espacial desconhecido que atinge a Terra

09 de Julho de 2026 às 06:15

Análise de esferulas cósmicas publicadas na Science Advances identificou um corpo espacial desconhecido que deposita material na Terra há mais de um milhão de anos. As partículas do grupo SCumPo apresentam alta concentração de enxofre e assinaturas isotópicas de oxigênio divergentes dos meteoritos catalogados. Simulações indicam que o objeto de origem é um asteroide próximo à Terra

Análise de pó cósmico revela a existência de corpo espacial desconhecido que atinge a Terra
Nicola Angeli/MUSE/Wikimedia Commons/CC BY-SA 3.0

A análise de esferas de cristal derretido, compostas por pó cósmico que atinge a Terra, revelou a existência de um corpo espacial desconhecido que deposita material na atmosfera terrestre há mais de um milhão de anos. O estudo, publicado na *Science Advances*, indica que essas partículas, conhecidas como esferulas cósmicas, originam-se de um "corpo parental" cujas características químicas não constam nas coleções atuais de meteoritos.

Essas esferulas se formam quando micrometeoritos — partículas menores que sementes de girassol provenientes de cometas e asteroides — fundem-se devido ao atrito ao entrarem em alta velocidade na atmosfera. A pesquisa identificou um grupo específico, denominado SCumPo (esferulas ricas em enxofre com olivina acumulado), que apresenta três anomalias: a presença de apenas magnetita, alta concentração de enxofre e uma assinatura isotópica de oxigênio distinta de qualquer material espacial já classificado.

A baixa quantidade de magnetita sugere que o objeto de origem se desenvolveu em um ambiente pobre em oxigênio, possivelmente rico em carbono, o que teria impedido a oxidação total do ferro durante a entrada atmosférica. Somado a isso, o elevado teor de enxofre aproxima o material das raras condrinas CY, enquanto as proporções de oxigênio indicam que o asteroide pode ter sofrido alterações por água com isótopos mais pesados do que os encontrados em outros corpos conhecidos.

A descoberta conecta dados acumulados desde 2005, quando estudos em gelo da Antártida detectaram isótopos de oxigênio incomuns em partículas do chamado "grupo 4". Em 2020, a análise de amostras não fundidas confirmou que essa anomalia era intrínseca ao objeto original, e não um efeito do aquecimento atmosférico. O novo estudo vinculou essa raridade à observação de olivina acumulada em um lado das esferulas, fenômeno ocorrido durante a frenagem na atmosfera.

Simulações de entrada atmosférica indicam que as partículas atingiram velocidades excepcionalmente altas. Esse comportamento é compatível com um asteroide próximo à Terra, diferindo de objetos vindos do cinturão principal entre Marte e Júpiter. Embora existam mais de 40 mil objetos próximos à Terra catalogados, o corpo específico responsável por esse material ainda não foi relacionado a essa poeira.

A estimativa é que até 10% do registro de micrometeoritos provenham desse asteroide ou de corpos semelhantes. A confirmação definitiva da origem exigiria a coleta de uma amostra direta por meio de missões espaciais, mas as coleções de pó cósmico disponíveis podem continuar a revelar a existência de outros corpos parentais ainda desconhecidos.

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