Ciência

Aranha australiana utiliza armadilhas de seda com molas para capturar formigas em mecanismo inédito

25 de Junho de 2026 às 06:18

A aranha-arco australiana utiliza armadilhas de seda com molas para capturar formigas arborícolas verdes em Queensland. O mecanismo, detalhado na revista Current Biology, atinge acelerações de 1.367 m/s²

Aranha australiana utiliza armadilhas de seda com molas para capturar formigas em mecanismo inédito
Ajay Narendra et al.

Uma espécie de aranha australiana do gênero *Propostira*, popularmente chamada de aranha-arco, utiliza um mecanismo de caça inédito baseado em armadilhas de seda com molas para capturar presas. O estudo, publicado na revista *Current Biology*, detalha um comportamento biomecânico de alta precisão, nunca antes registrado em outros aracnídeos.

A estratégia é empregada nas florestas tropicais da península de Cape York, em Queensland, onde o animal noturno constrói uma estrutura cônica tensionada com fios de seda. O alvo específico dessa engenharia é a formiga arborícola verde (*Oecophylla smaragdina*), espécie reconhecida por sua agressividade, territorialismo e uso de ácido fórmico.

Para montar a armadilha, a aranha desce de seu abrigo durante a noite e fixa pontos de ancoragem, retornando à teia principal sucessivamente até formar o cone sob tensão. A estrutura é finalizada com uma camada de material mais fino, que atua como um gatilho para atrair ou provocar as formigas.

O disparo ocorre quando a formiga morde o cone, fazendo com que a estrutura se desprenda da superfície. A contração instantânea dos fios tensionados lança o inseto em direção à teia principal, impedindo que a presa retorne ao seu caminho ou seja auxiliada por outras operárias.

A potência do sistema é extrema, com acelerações que atingem 1.367 m/s², o que representa cerca de 140 vezes a aceleração da gravidade. Esse desempenho energético supera outros mecanismos de lançamento conhecidos entre aracnídeos, tornando-se um dos sistemas naturais baseados em seda mais potentes já documentados.

Ajay Narendra, professor da Universidade Macquarie e autor principal da pesquisa, descreve o funcionamento como o de uma mola carregada, que acumula energia gradualmente para liberá-la de forma súbita. Devido à rapidez da liberação, a armadilha produz, proporcionalmente ao seu tamanho, milhares de vezes mais potência do que a musculatura.

A especialização da aranha-arco em uma única espécie de presa é considerada excepcional. Existe a hipótese de que o aracnídeo utilize feromônios ou sinais químicos na seda fina para estimular a reação agressiva da formiga, ponto que ainda requer investigações adicionais.

Para o biólogo Leonardo Delgado-Santa, da Universidade do Quindío, a descoberta evidencia a convergência entre especialização ecológica e biomecânica avançada, exemplificando como a evolução ajusta ferramentas de caça ao comportamento defensivo de presas específicas.

Notícias Relacionadas