Arqueólogos descobrem rede de assentamentos pré-hispânicos com urbanismo complexo no leste do Equador
Arqueólogos identificaram, via tecnologia LiDAR, mais de 6 mil plataformas de terra e estradas no Vale do Upano, Equador. As estruturas, datadas entre 500 a.C. e 600 d.C., indicam a existência de um sistema urbanístico com agricultura de milho e outras culturas. O complexo abrange 300 quilômetros quadrados e foi habitado pelos grupos Upano e Kilamope
A identificação de uma rede de assentamentos pré-hispânicos no Vale do Upano, no leste do Equador, altera a compreensão histórica sobre a ocupação da Amazônia. Por meio da tecnologia LiDAR, que utiliza pulsos de laser para mapear o relevo sob a vegetação, arqueólogos localizaram mais de 6 mil plataformas elevadas de terra compactada distribuídas por uma área de 300 quilômetros quadrados.
O sistema urbanístico revela uma organização complexa, composta por plataformas retangulares dispostas ao redor de praças e espaços destinados a funções públicas ou cerimoniais. A infraestrutura inclui estradas largas e retilíneas, com extensões de vários quilômetros, que interligam os diferentes núcleos residenciais, zonas de produção e áreas coletivas. Esse arranjo, descrito como "urbanismo-jardim" ou "cidades-jardim", evidencia um planejamento coordenado da circulação e do uso do solo.
A cronologia da região foi refinada por estudos recentes. Um artigo de 2024, publicado na revista Science, datou a construção das estradas e plataformas entre 500 a.C. e o período entre 300 e 600 d.C., vinculando as obras aos grupos Upano e Kilamope. Complementarmente, uma análise paleoecológica de sedimentos do lago Cormorán, realizada em 2025, detectou cultivos de milho por volta de 570 a.C., indicando que a presença humana no vale precede as estruturas monumentais. Esse mesmo estudo sugere que o uso intensivo da paisagem declinou gradualmente até 550 d.C., descartando a hipótese de um abandono súbito.
As evidências materiais e escavações no entorno confirmam a existência de sistemas de drenagem e a agricultura de milho, feijão, mandioca e batata-doce. Além disso, pesquisas publicadas na Nature Communications demonstram que a vegetação atual da região não é meramente natural, mas carrega marcas das intervenções humanas ancestrais e de interações prolongadas com o ambiente.
Essas descobertas contestam a visão tradicional de que a floresta amazônica era habitada por populações de baixa densidade com impacto limitado no ecossistema. O complexo do Upano reforça a tese de que sociedades pré-coloniais executavam obras públicas de grande porte e manejavam a agricultura de forma organizada. Embora a estimativa de 10 mil habitantes para o conjunto de assentamentos seja citada em reportagens baseadas nos dados de 2024, a medida é tratada com cautela por depender de projeções arqueológicas.
Para aprofundar a compreensão sobre a função de cada estrutura e a dinâmica social do vale, pesquisadores ligados ao CNRS planejam novas etapas de campo, incluindo a análise de cerâmicas, sedimentos, restos botânicos e a aplicação de novas datações, visto que o mapeamento remoto serve como guia, mas não substitui as escavações locais.