Astrônomos japoneses identificam indícios de atmosfera em corpo gelado além de Netuno
Astrônomos japoneses identificaram indícios de atmosfera no objeto (612533) 2002 XV93, corpo de 500 km de diâmetro além de Netuno. A detecção ocorreu via ocultação estelar em janeiro de 2024, com pressão estimada entre 100 e 200 nanobares. O estudo, publicado na Nature Astronomy, analisa se o gás provém de atividade geológica ou de um impacto recente
Astrônomos japoneses identificaram indícios de uma atmosfera ao redor do objeto (612533) 2002 XV93, um corpo gelado de 500 km de diâmetro que orbita o Sol em regiões remotas, além de Netuno. A descoberta, detalhada em estudo liderado por Ko Arimatsu do Observatório Astronômico Nacional do Japão (NAOJ) e publicado na revista *Nature Astronomy* em 4 de maio de 2026, questiona a premissa científica de que corpos com dimensões reduzidas e baixa gravidade seriam incapazes de reter envelopes gasosos.
A detecção ocorreu durante um evento de ocultação estelar em 10 de janeiro de 2024, quando o objeto passou à frente de uma estrela distante. Em vez de um desaparecimento abrupto da luz, os telescópios registraram uma diminuição e um reaparecimento graduais da luminosidade ao longo de 1,5 segundos, padrão característico da passagem da luz por camadas de gás. A observação foi coordenada entre múltiplos pontos no Japão, incluindo o telescópio Kiso Schmidt, na província de Nagano, observatórios em Kyoto e equipamentos operados por astrônomos amadores em Fukushima. Em ao menos dois locais, os registros confirmaram a progressão da luz, descartando a probabilidade de falhas instrumentais.
A pressão atmosférica estimada para o 2002 XV93 situa-se entre 100 e 200 nanobares. Embora seja significativamente menor que a de Plutão — cujo valor de 10 microbares é de 50 a 100 vezes superior — e drasticamente inferior à da Terra, que possui 1 bilhão de nanobares ao nível do mar, a medida é surpreendente para a escala do objeto. Anteriormente, a planetologia considerava que corpos com menos de mil quilômetros de diâmetro no Sistema Solar exterior seriam rochas geladas inertes, com limites de atmosfera estimados entre 1 e 100 nanobares.
O corpo em questão é classificado como um plutino, categoria de objetos transnetunianos com órbita ressonante com Netuno. Localizado a aproximadamente 38 ou 40 unidades astronômicas do Sol, o 2002 XV93 leva 247 anos para completar uma volta orbital e formou-se há mais de 4,5 bilhões de anos. Seu tamanho representa cerca de um quinto do diâmetro de Plutão e é consideravelmente menor que o de Éris.
Para explicar a existência desse gás, os pesquisadores trabalham com duas hipóteses. A primeira sugere a liberação de voláteis por processos de criovulcanismo, o que indicaria atividade geológica interna e uma pressão atmosférica estável ou sazonal. A segunda possibilidade é que a atmosfera tenha sido gerada por um impacto recente de um cometa ou outro corpo pequeno. Dados do Telescópio Espacial James Webb, que não detectaram gases congelados na superfície do objeto, reforçam a tese do impacto, já que a ausência de gelo visível enfraquece a hipótese de evaporação contínua.
Caso a origem seja um impacto, a atmosfera deve se dissipar em um período entre 100 e 1.000 anos. O monitoramento nos próximos 5 a 10 anos, por meio de novas ocultações estelares e observações com o James Webb, definirá se a pressão atmosférica diminuirá constantemente ou se manterá estável. Ko Arimatsu ressaltou que o desenvolvimento é surpreendente, mas enfatizou a necessidade de verificação independente para consolidar a descoberta.
O achado sugere que outros corpos do Cinturão de Kuiper podem possuir atmosferas, alterando a compreensão sobre a composição e o comportamento de objetos nas franjas do Sistema Solar, onde a luz solar é mil vezes mais fraca que na Terra e as temperaturas beiram o zero absoluto.