Ciência

Bactéria identificada pela Unesp supera produtos químicos no controle do percevejo-marrom em testes laboratoriais

14 de Maio de 2026 às 12:41

Pesquisadores da Unesp identificaram que a bactéria Bacillus altitudinis causou cerca de 80% de mortalidade no percevejo-marrom em testes laboratoriais. O microrganismo atua por contato tarsal, superando a eficácia de produtos químicos. A tecnologia está em fase de prova de conceito e deve chegar ao mercado entre três e seis anos

Bactéria identificada pela Unesp supera produtos químicos no controle do percevejo-marrom em testes laboratoriais
Imagem: Ilustração

Pesquisadores do INCT NanoAgro, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), identificaram que a bactéria *Bacillus altitudinis* apresenta alta eficácia no controle do percevejo-marrom (*Euschistus heros*). Em testes laboratoriais, o microrganismo alcançou índices de mortalidade próximos a 80%, superando a eficiência de diversos produtos químicos, que costumam registrar resultados entre 30% e 40%.

O diferencial da descoberta reside no mecanismo de ação por contato tarsal. Enquanto a maioria dos biológicos à base de *Bacillus* depende da ingestão pelo inseto, a *Bacillus altitudinis* contamina o percevejo pelas patas enquanto ele caminha sobre a superfície tratada da planta. Essa via de contágio é fundamental porque o percevejo-marrom possui aparelho bucal sugador, perfurando o grão para extrair nutrientes em vez de mastigar a folha, o que anula a eficácia de agentes que precisam ser ingeridos. Além disso, a anatomia do inseto, que apresenta camadas estáticas no dorso e substâncias antifúngicas, dificulta o controle por métodos tradicionais.

O controle do percevejo-marrom é um dos maiores desafios da agricultura brasileira devido à alta variabilidade genética da praga, que gera populações com características distintas a cada 50 quilômetros. Essa diversidade acelera a resistência a defensivos químicos, elevando as doses aplicadas em algumas regiões de meio quilo para um quilo e meio por hectare. O impacto econômico é severo: na última safra de soja, os prejuízos foram estimados em R$ 12 bilhões. As perdas por hectare variam de 49 kg a 120 kg, o que pode representar até duas sacas de soja, especialmente porque o ataque ocorre no enchimento dos grãos, fase final do ciclo produtivo.

A tecnologia desenvolvida pelo INCT NanoAgro encontra-se atualmente na etapa de prova de conceito tecnológica. Para que a solução chegue ao mercado, o projeto deve avançar para testes em casas de vegetação, validações regionais e escalonamento industrial. O desenvolvimento de formulações comerciais contará com a nanotecnologia, focando em encapsulamento de ativos, sistemas de liberação controlada e nanopartículas biogênicas. O objetivo é garantir que o microrganismo mantenha estabilidade e persistência em campo, resistindo à radiação UV e a temperaturas que superam os 40°C em lavouras de soja.

A iniciativa surge em um cenário de expansão dos bioinsumos. Globalmente, o mercado de biológicos supera US$ 13 bilhões (R$ 65 bilhões). No Brasil, o setor movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025, abrangendo 194 milhões de hectares tratados, segundo a CropLife Brasil. A tendência de substituição ou complementação de químicos por soluções sustentáveis tem levado multinacionais a investir em biofábricas e parcerias com centros de pesquisa. A expectativa é que a linhagem de *Bacillus altitudinis* se torne um produto comercial em um prazo de três a seis anos.

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