Ciência

Bochecho de carboidratos reduz a percepção de esforço e melhora o desempenho de atletas de elite

08 de Julho de 2026 às 06:06

O bochecho de carboidrato consiste em reter soluções de açúcar e eletrólitos na boca para estimular o sistema nervoso central e reduzir a percepção de esforço. A técnica pode elevar o desempenho entre 1% e 3%, evitando desconfortos gastrointestinais em atividades de alta intensidade

Bochecho de carboidratos reduz a percepção de esforço e melhora o desempenho de atletas de elite
AP/Eric Gay)

O hábito de atletas de manterem líquidos na boca e cuspi-rem em seguida, observado em vídeos durante a Copa do Mundo de 2026 e em apresentações artísticas, fundamenta-se em uma estratégia científica chamada "bochecho de carboidrato" (*carbohydrate mouth rinse*). A técnica consiste em reter por alguns segundos uma solução rica em açúcar e eletrólitos, como bebidas esportivas, sem engoli-la.

O mecanismo de ação ocorre no sistema nervoso central e não por meio da ingestão calórica. Receptores na cavidade bucal detectam o carboidrato e enviam sinais ao cérebro, estimulando áreas responsáveis pelo controle motor, tomada de decisão e funções executivas, especificamente o córtex pré-frontal. Essa ativação reduz a percepção de esforço e melhora levemente o desempenho em atividades de alta intensidade, criando a interpretação cerebral de que há combustível disponível, mesmo sem a absorção real de glicose pelo organismo.

Devido a essa natureza sensorial, o método mantém a eficácia mesmo que o esportista tenha se alimentado adequadamente antes do exercício. A principal vantagem competitiva é a prevenção de desconfortos gastrointestinais, como náuseas e a sensação de estômago cheio, que podem surgir ao ingerir líquidos concentrados de açúcar durante esforços intensos.

Em termos de resultados, a melhora no desempenho varia entre 1% e 3%. Embora esse ganho seja irrelevante para praticantes recreativos, ele pode ser decisivo para atletas de elite em modalidades como o ciclismo contrarrelógio. Uma revisão sistemática publicada na revista *Nutrients*, que analisou onze estudos, confirmou a eficácia do método em nove deles, com ganhos variando de 1,5% a quase 12% em exercícios de intensidade moderada a alta com duração próxima a uma hora.

A maioria das pesquisas focou em corridas e ciclismo com sessões entre 30 e 75 minutos. No futebol, cujas partidas duram 90 minutos ou mais, a técnica pode ser aplicada de forma pontual em momentos de pressão extrema ou alta intensidade, quando a percepção de esforço é maior.

Contudo, a estratégia possui limitações biológicas. Quando as reservas de glicogênio estão criticamente baixas — comum em exercícios muito prolongados —, o bochecho torna-se insuficiente, pois os músculos demandam energia real via corrente sanguínea. Nesses casos, ou em atividades que superem 75 minutos, a ingestão efetiva do carboidrato é a única via para a reposição necessária de energia.

Apesar da validade científica do método, Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), ressalta que não se pode afirmar que todos os jogadores flagrados cuspindo em campo estejam utilizando a técnica. O gesto pode derivar de hábitos pessoais, desconforto bucal ou simples descarte de água, sendo a confirmação dependente de informações diretas dos atletas ou de suas equipes.

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