Brasil opera a maior biofábrica de mosquitos com a bactéria Wolbachia para combater a dengue
A liberação de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia reduziu os casos de dengue em Niterói e Campo Grande e protegeu seis milhões de pessoas no Brasil. Curitiba abriga a maior biofábrica do mundo da técnica, com capacidade de cem milhões de ovos semanais. O governo federal planeja expandir o método para 70 cidades até o fim deste ano e 54 municípios adicionais em 2026
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A utilização de mosquitos *Aedes aegypti* inoculados com a bactéria Wolbachia tem se mostrado eficaz no combate à dengue no Brasil, embora a expansão da técnica enfrente obstáculos operacionais. O método, desenvolvido inicialmente na Austrália em 2008, consiste na liberação de insetos que não conseguem desenvolver o vírus da dengue, zika e chikungunya, substituindo gradualmente a população de mosquitos transmissores por meio da reprodução geracional.
Desde que os testes começaram no Brasil, em 2011, sob a coordenação do entomologista Luciano Moreira, a estratégia protegeu seis milhões de pessoas. A eficácia é evidenciada em cidades como Niterói e Campo Grande, onde houve reduções de 89% e 63% nos casos da doença, respectivamente.
Para viabilizar a distribuição, funciona em Curitiba a maior biofábrica de "wolbitos" do mundo, inaugurada em 2025 com suporte da ONG World Mosquito Program (WMP) e da Fundação Oswaldo Cruz. A unidade, que emprega 70 pessoas, opera com gaiolas iluminadas e temperatura controlada, alimentando os insetos com água açucarada e sangue quente de cavalo. A capacidade de produção chega a cem milhões de ovos infectados por semana, que são transmitidos pelas fêmeas aos filhotes e enviados em cápsulas para centros municipais para posterior liberação.
Apesar do sucesso técnico, a implementação nacional é lenta diante do cenário epidemiológico de 2024, ano em que o Brasil registrou mais de 6.000 mortes por dengue. O governo federal reconheceu a técnica como medida de saúde pública, mas a produção da biofábrica de Curitiba chegou a ser reduzida devido à baixa demanda do Ministério da Saúde.
A expansão do projeto esbarra em dificuldades logísticas, financeiras e operacionais. No Rio de Janeiro, a bióloga e epidemiologista Ludimila Raupp, da PUC-Rio, aponta que a descoordenação institucional e o uso inadequado de larvicidas prejudicaram a fixação dos mosquitos Wolbachia. Além disso, a violência em áreas de favelas cariocas dificultou a aplicação do método.
Outro fator complicador é a mudança climática, que expandiu a incidência da dengue para regiões anteriormente frias, como o Sul do país. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, admite os desafios técnicos da operação, mas projeta a implementação do método em 54 municípios em 2026, totalizando 70 cidades atendidas até o fim deste ano.
A estratégia não é apresentada como solução única, mas como uma medida complementar a outras intervenções, como a vacinação, exigindo alguns anos de aplicação para que os resultados sejam plenamente observados.