Ciência

Calor aumenta interações sexuais entre machos de espécie de besouro por falha no reconhecimento químico

10 de Julho de 2026 às 06:10

Estudo da Universidade de St Andrews indica que o aumento da temperatura de 20°C para 26°C dobrou as interações sexuais entre machos do besouro Nicrophorus vespilloides. A pesquisa sugere que o calor altera a camada química de identificação dos insetos, causando falhas no reconhecimento do sexo

Calor aumenta interações sexuais entre machos de espécie de besouro por falha no reconhecimento químico
Solène Morelle

Um estudo conduzido com a espécie de besouro *Nicrophorus vespilloides* revelou que o aumento da temperatura ambiental intensifica as interações de caráter sexual entre machos. A pesquisa, apresentada por Morelle, doutoranda da Universidade de St Andrews, durante conferência da Sociedade de Biologia Experimental em Florença, na Itália, observou que a frequência desses episódios praticamente dobrou quando a temperatura subiu de 20°C para 26°C em um ambiente simulado de onda de calor.

Esses insetos, conhecidos por enterrar carcaças de pequenos animais como roedores e aves para alimentar suas larvas, dependem de uma camada química na superfície do corpo para a comunicação. Essa substância é essencial para o reconhecimento entre indivíduos e para evitar a desidratação em climas quentes. A hipótese central do trabalho é que, sob calor intenso, o organismo do besouro modifique essa camada para reforçar a proteção térmica, o que acabaria tornando os sinais químicos de identificação de sexo menos precisos.

Dessa forma, a maior incidência de interações entre machos não seria reflexo de uma mudança de preferência sexual, mas sim de uma falha no reconhecimento, levando os animais a confundirem outros machos com possíveis parceiras. A pesquisadora ressalta que esse comportamento não deve ser interpretado sob categorias humanas, tratando-se de um prejuízo na percepção química.

Os dados indicaram que a maioria das duplas de machos já apresentava esse tipo de interação mesmo a 20°C, com média de pouco mais de um episódio por dupla, número que subiu para cerca de dois sob a temperatura mais alta. Também foi registrado um aumento em interações recíprocas, nas quais os dois machos alternavam papéis, embora o significado desse dado ainda seja incerto e considere-se a possibilidade de que o contato próximo estimule a tentativa de reconhecimento mútuo.

A análise das substâncias químicas dos besouros segue em andamento para comprovar a relação entre o calor e a alteração dos sinais. As próximas etapas da investigação buscarão determinar se esse erro de reconhecimento reduz o contato dos machos com as fêmeas, impactando a reprodução, ou se dificulta a identificação de invasores. Para a espécie, confundir um rival com um parceiro pode ser crítico, pois invasores podem tomar a carcaça e matar as larvas.

A equipe avalia que, caso esses custos reprodutivos e de sobrevivência sejam confirmados, as mudanças climáticas podem estar gerando efeitos sobre a reprodução animal e a resistência das populações que ainda não haviam sido considerados.

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