Ciência

Casos de demência em idosos cresceram em partes da América Latina nas últimas duas décadas

16 de Julho de 2026 às 06:08

A prevalência de demência em idosos na América Latina subiu de 10,6% para 16,9% nas últimas duas décadas, segundo estudo da revista JAMA Neurology. O aumento foi impulsionado por México, Porto Rico e Peru, contrastando com a queda de índices nos Estados Unidos e Europa

Casos de demência em idosos cresceram em partes da América Latina nas últimas duas décadas
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A prevalência de demência em idosos cresceu significativamente em partes da América Latina nas últimas duas décadas, contrastando com a tendência de queda observada nos Estados Unidos e em grande parte da Europa. Um estudo publicado na revista JAMA Neurology revelou que, nos locais analisados, a proporção de pessoas com 65 anos ou mais convivendo com a doença saltou de 10,6% para 16,9%.

O aumento foi impulsionado principalmente por três regiões: México (subida de 9,6% para 14,5%), Porto Rico (de 10,7% para 15,7%) e Peru (de 7,6% para 11,7%). Em contrapartida, os índices permaneceram estáveis em Cuba e na República Dominicana.

Metodologia e Subestimação de Dados

A pesquisa, conduzida por especialistas da Universidade Washington em St. Louis (EUA) e da Universidade de Newcastle (Reino Unido), baseou-se em dados de 16.950 pessoas. O diferencial do estudo foi a coleta de dados "porta a porta", realizada em duas etapas: entre 2003 e 2006, e novamente entre 2016 e 2020.

Essa abordagem permitiu alcançar idosos que raramente buscam serviços de saúde, reduzindo o viés de seleção comum em estatísticas baseadas apenas em prontuários hospitalares. Como resultado, as estimativas reais superaram as projeções anteriores; no México, por exemplo, projeta-se que cerca de 1,2 milhão de pessoas vivam com a demência, evidenciando que a doença vinha sendo subestimada na região.

Fatores de Risco e o "Exposoma"

Mesmo após ajustar os dados considerando escolaridade, comportamento e doenças como obesidade e diabetes, o avanço da demência persistiu no México e em Porto Rico. Isso indica que fatores não mensurados tradicionalmente estão influenciando os números.

O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), associa esse fenômeno ao conceito de exposoma — o conjunto de exposições acumuladas desde a gestação até a velhice. Elementos que podem ter impactado os resultados, mas não foram incluídos no estudo, incluem:
* Exposição a metais pesados, solventes e pesticidas;
* Poluição ambiental;
* Infecções crônicas e traumatismos cranianos repetidos;
* Isolamento social.

Sobre a estabilidade em Cuba e República Dominicana, os autores sugerem que esses países podem ter evitado a alta devido a uma menor explosão de sedentarismo, obesidade e doenças metabólicas mal controladas. Biologicamente, a diabetes e a obesidade elevam o risco de hipertensão e aterosclerose, o que prejudica a circulação cerebral e favorece a demência vascular.

O Paradoxo da Escolaridade e a Situação no Brasil

Um ponto inesperado da pesquisa é que a demência avançou mesmo com a melhora nos níveis de escolaridade da região. Embora o estudo acadêmico seja tradicionalmente visto como um fator protetivo, a análise indica que a qualidade do aprendizado e a presença de outros riscos, como saneamento precário e poluição, podem anular esse benefício.

O Brasil não integrou a amostra, mas Picarelli avalia que a tendência pode ser semelhante, embora faltem estudos populacionais com a mesma metodologia no país. O médico alerta que o Brasil possui políticas de diagnóstico precoce e prevenção insuficientes para enfrentar o envelhecimento acelerado da população, especialmente em áreas vulneráveis.

Prevenção e Sinais de Alerta

Diante do alto custo de medicamentos modernos — como o lecanemabe, que custa cerca de R$ 11 mil mensais no Brasil e possui indicação restrita —, a prevenção torna-se a estratégia principal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a revista The Lancet estimam que até 45% do risco de demência pode ser evitado ou adiado através do controle de fatores modificáveis.

As recomendações para a preservação da memória e saúde cerebral incluem:
* Dieta: Prioridade para vegetais, frutas, grãos integrais, sementes e peixes, evitando ultraprocessados;
* Estilo de vida: Atividade física regular, abandono do tabagismo e moderação no álcool;
* Saúde clínica: Controle rigoroso de pressão arterial, açúcar no sangue e colesterol;
* Estímulo cognitivo: Leitura, novos aprendizados, vida social ativa e preservação da visão e audição.

Para diferenciar o esquecimento benigno da demência, Picarelli explica que lapsos pontuais (como esquecer chaves ou e-mails) costumam estar ligados ao estresse ou sono. Já a necessidade de avaliação médica ocorre quando as falhas comprometem a autonomia, como perder-se em locais conhecidos, repetir a mesma pergunta sucessivamente ou ter dificuldade com dinheiro e medicamentos.

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