Caverna ao sul de Paris revela modelo tridimensional do território esculpido no Paleolítico Superior
Grupos paleolíticos criaram uma representação tridimensional do território na caverna Ségognole 3, ao sul de Paris, há mais de 20 mil anos. O modelo físico, detalhado no Oxford Journal of Archaeology, utilizou relevos naturais e entalhes na rocha para reproduzir vales, cursos d'água e encostas. O local também abriga gravuras de cavalos e figuras femininas
:format(jpg)/f.elconfidencial.com%2Foriginal%2F9f6%2Ffdd%2F746%2F9f6fdd746da861f45bf6d5101f8f0dfe.jpg)
Marcas esculpidas há mais de 20 mil anos na caverna Ségognole 3, situada no afloramento de arenito de Noisy-sur-École, ao sul de Paris, indicam a existência de uma representação tridimensional do território criada por grupos paleolíticos. O estudo, publicado no *Oxford Journal of Archaeology*, detalha como caçadores-coletores utilizaram relevos naturais, fissuras e depressões no solo da caverna para construir um modelo físico do ambiente circundante.
A equipe de pesquisa, coordenada por Médard Thiry e Anthony Milnes, identificou que a superfície da rocha foi deliberadamente modificada para reproduzir traços geomorfológicos da paisagem, como vales, encostas e cursos d'água. Diferente de pinturas planas ou objetos transportáveis, essa maquete em escala estaria integrada à própria estrutura da caverna, com entalhes e canais que direcionam a água da chuva por trajetos específicos, reforçando a leitura territorial do espaço.
A precisão das marcações sugere que os autores do conjunto possuíam a capacidade de abstrair o terreno e representá-lo fisicamente, incluindo referências a lagos, rios e deltas. A interação hídrica é um ponto central da descoberta: a água penetra por pequenas fendas e é conduzida por canais até depressões, incluindo uma cavidade com formato semelhante a uma vulva.
Além do modelo geográfico, a caverna Ségognole 3 abriga gravuras de cavalos e motivos ligados à figura feminina. Essa coexistência de elementos indica que o local poderia possuir uma dimensão simbólica abrangente, unindo a observação da paisagem a temas recorrentes da arte do Paleolítico Superior. O achado posiciona a caverna como um dos registros mais antigos de representação tridimensional do território, evidenciando que esses grupos humanos integravam memória espacial, simbolismo e a dinâmica da água em obras esculpidas na pedra.