Ciência

Células maternas permanecem no organismo dos filhos e podem auxiliar na regeneração de tecidos

05 de Maio de 2026 às 06:17

O microquimerismo materno consiste na permanência de células da mãe em tecidos dos filhos após a gestação, podendo auxiliar na regeneração de órgãos e no desenvolvimento cerebral. O fenômeno ocorre de forma bidirecional, com células fetais também migrando para o corpo materno. A presença dessas células é associada tanto a benefícios biológicos quanto ao desenvolvimento de doenças autoimunes

O microquimerismo materno é o fenômeno biológico que consiste na presença de células geneticamente distintas da mãe no organismo dos filhos. Esse processo ocorre durante a gestação, quando células maternas atravessam a placenta e se instalam em diversos tecidos fetais, permanecendo nesses locais por décadas após o nascimento. O termo, derivado da Quimera da mitologia grega, define a existência de células alheias em pequena escala dentro de um indivíduo.

Documentado pela primeira vez na década de 1960, o fenômeno manifesta-se em proporções discretas, com a média de uma célula materna para cada milhão de células no corpo de adultos. Embora essa quantidade tenda a diminuir com a idade, a ciência identifica que tais células exercem funções ativas e não são meros resíduos. A distribuição dessas células é ampla, tendo sido detectadas no sangue, pele, medula óssea, tireoide, glândulas suprarrenais, intestino, fígado, pulmões e coração. A presença no cérebro é considerada notável por exigir a superação da barreira hematoencefálica, o que indica a existência de um mecanismo biológico ativo para facilitar essa entrada.

Pesquisas publicadas na revista Nature Communications em agosto de 2022, conduzidas com camundongos, revelaram que as células maternas no cérebro fetal regulam o desenvolvimento da microglia — células de defesa do sistema nervoso central essenciais para a formação de circuitos neurais. O estudo concluiu que essas células estabelecem condições ideais para a saúde cerebral futura. Além disso, há evidências de que o microquimerismo contribui para a regeneração de tecidos lesionados em órgãos como o fígado e o coração, além de modular o sistema imunológico do filho para tolerar tecidos geneticamente diferentes, o que impacta gestações futuras e transplantes.

Contudo, o fenômeno também apresenta aspectos adversos. A literatura científica associa a presença de células maternas ao desenvolvimento de doenças autoimunes, como a esclerose sistêmica, o lúpus eritematoso sistêmico e a dermatomiosite juvenil. Existem ainda hipóteses de que essas células possam interferir no pâncreas, contribuindo para a diabetes tipo 1. A variação entre a proteção e o prejuízo biológico é atribuída a fatores genéticos individuais que determinam a interação do sistema imune do filho com as células maternas.

O processo ocorre de forma bidirecional, caracterizando o microquimerismo fetal, no qual células do bebê migram para o corpo da mãe. Essa troca foi comprovada pela detecção de DNA do cromossomo Y no cérebro de mulheres que tiveram filhos homens, conforme publicado pelo Scientific American. Complementarmente, um estudo de 2015 da Universidade de Leiden, publicado na Circulation Research, demonstrou que células fetais migram para áreas lesionadas do coração materno, auxiliando na regeneração após quadros de insuficiência cardíaca.

Apesar do avanço nas pesquisas, a ciência ainda não esclareceu totalmente como as células maternas transpõem a barreira hematoencefálica ou por que a persistência dessas células varia entre os indivíduos. Grande parte do conhecimento atual deriva de modelos animais, como ratos e camundongos, sendo a aplicação desses resultados a humanos feita com cautela por meio de biópsias e análises post-mortem. O estudo do microquimerismo indica que a gestação deixa marcas celulares permanentes, abrindo possibilidades futuras para tratamentos de patologias imunológicas, neurológicas e cardíacas.

Notícias Relacionadas