Ciência

Cepa Andes do hantavírus apresenta capacidade de transmissão entre seres humanos na Patagônia

15 de Maio de 2026 às 12:08

A cepa Andes do hantavírus, encontrada na Patagônia, possui a capacidade de transmissão entre humanos mediante contato próximo. O instituto Malbrán investiga reservatórios do vírus em Ushuaia após a Argentina registrar 102 casos da doença desde junho

Cepa Andes do hantavírus apresenta capacidade de transmissão entre seres humanos na Patagônia
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A cepa Andes do hantavírus, presente há décadas na Patagônia argentina e chilena, destaca-se por uma característica incomum entre variantes do vírus: a capacidade de transmissão entre seres humanos. Embora o contágio inicial ocorra por meio do contato com saliva, urina ou fezes do rato-de-cauda-longa (*Oligoryzomys longicaudatus*), geralmente em locais fechados, a variante Andes pode gerar cadeias de transmissão humana, como observado no surto ocorrido no navio de cruzeiro Hondius e em episódios registrados na Patagônia argentina em 1996 e 2018.

A propagação do vírus entre pessoas não é a regra, mas um evento excepcional que exige contato próximo, com distância inferior a um metro, por um período de trinta minutos. Essa transmissibilidade é significativamente menor do que a observada em doenças como a gripe ou a covid-19. Cientistas descartam que mutações recentes tenham conferido essa propriedade ao vírus, defendendo que a cepa Andes sempre foi capaz de infectar humanos, coincidindo com a expansão da ocupação humana em habitats naturais dos roedores.

Fatores ambientais influenciam a incidência de casos iniciais. Períodos de chuvas intensas, associadas ao El Niño, favorecem o crescimento da vegetação e a oferta de alimentos, aumentando a população de roedores e, consequentemente, as chances de contato com trabalhadores rurais. Em contrapartida, secas e incêndios típicos do verão regional reduzem a quantidade desses animais. No entanto, tais variáveis climáticas não interferem nos casos de transmissão inter-humana, onde apenas o roedor responsável pelo primeiro contágio tem papel relevante.

A dificuldade em compreender por que o vírus gera cadeias de transmissão em algumas ocasiões e casos isolados em outras reside na baixa frequência de ocorrências e na evolução clínica da doença. Os sintomas iniciais assemelham-se a uma gripe, acompanhados de vômitos ou diarreia, mas o quadro pode evoluir rapidamente para a necessidade de ventilação mecânica em poucas horas, geralmente a partir do quarto dia de infecção.

Atualmente, pesquisadores do instituto Malbrán se deslocam para Ushuaia, na Terra do Fogo, para investigar se o roedor local é a mesma espécie de rato-de-cauda-longa ou uma subespécie, a fim de determinar seu papel como reservatório do hantavírus. Esse estudo ocorre em um cenário de alta nos registros da doença: na campanha epidemiológica iniciada em junho, a Argentina contabilizou 102 casos de diferentes cepas de hantavírus, número quase duas vezes maior que os 57 registrados no período anterior.

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