Cientistas descobrem ecossistema microbiano baseado em enxofre nas profundezas da Fossa de Atacama
Cientistas espanhóis identificaram um ecossistema microbiano baseado em emissões de gases de enxofre a 2,5 km de profundidade na Fossa de Atacama. O estudo, publicado na Nature Communications, destaca a ausência de metano e a presença de organismos oxidadores e redutores de enxofre
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Cientistas espanhóis descobriram um ecossistema microbiano singular a 2,5 km de profundidade na Fossa de Atacama, na costa de Antofagasta. O achado, detalhado na revista Nature Communications, revela a existência de vida prosperando em torno de emissões de gases de enxofre, substâncias que costumam ser letais para a maioria dos organismos.
A identificação ocorreu durante a expedição "Living Fossils of the Atacama Trench", iniciativa do programa Schmidt Ocean Institute sob a liderança de Armando Azúa Bustos, do Centro de Astrobiologia (CAB). O projeto visava explorar as profundezas de uma das regiões marinhas mais estáveis e desconhecidas da Terra, com extensões que superam os 8.000 metros.
A equipe localizou sedimentos anormalmente escuros em uma área coberta por biopelículas brancas. O local era habitado por organismos vinculados a emissões de gases, como moluscos simbióticos que utilizam bactérias para converter a energia química do ambiente em sustento. Esse fenômeno é característico das chamadas "cold seeps" (emissões frias), que funcionam como oásis no oceano profundo, onde fluidos e gases emergem do subsolo para sustentar comunidades especializadas que não dependem da luz solar.
A análise de RNA das amostras de sedimento revelou que, longe da emissão, as comunidades microbianas são similares às de outros fundos abissais, alimentando-se de "neve marinha" — detritos orgânicos provenientes da superfície. Contudo, a proximidade com a emissão altera drasticamente a biologia local. Miguel Arribas Tiemblo, pesquisador do CAB e autor principal do estudo, aponta que a superfície da emissão é composta por organismos oxidadores de enxofre, enquanto o subsolo concentra bactérias redutoras de sulfato, configurando um ciclo de enxofre altamente ativo.
O diferencial deste ecossistema é a quase total ausência de metano, molécula frequentemente encontrada em emissões submarinas globais. A falta de hidrocarbonetos torna este ambiente único. Para corroborar a análise, o cientista Javier Sánchez España, também do CAB, destacou a detecção de diversas formas cristalinas de pirita, incluindo framboides e cristais de grande porte, o que comprova a redução ativa de sulfato na geoquímica dos sedimentos.
A descoberta amplia a compreensão sobre a vida em condições extremas e fornece subsídios para a investigação de possíveis ambientes habitáveis em oceanos subterrâneos de luas como Europa e Encélado.