Ciência

Cientistas detectam o maior buraco negro de origem estelar já encontrado na Via Láctea

23 de Maio de 2026 às 06:13

Cientistas da Agência Espacial Europeia detectaram o Gaia BH3, o maior buraco negro de origem estelar da Via Láctea. Localizado na constelação de Águia, o objeto possui cerca de 33 vezes a massa solar. A identificação ocorreu via telescópio Gaia através da oscilação gravitacional de uma estrela companheira

Cientistas detectam o maior buraco negro de origem estelar já encontrado na Via Láctea
Telescópio Gaia espaço

Cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) identificaram o Gaia BH3, o maior buraco negro de origem estelar já detectado dentro da Via Láctea. Localizado na constelação de Águia, a menos de 2 mil anos-luz do Sistema Solar, o objeto possui aproximadamente 33 vezes a massa do Sol, superando a média de 5 a 15 massas solares encontrada em buracos negros estelares tradicionais da galáxia.

A detecção ocorreu por meio de dados do telescópio espacial Gaia, missão lançada em 2013 para mapear a posição, velocidade e composição de bilhões de estrelas. O buraco negro não foi observado diretamente, já que não emite luz visível nem radiação intensa, permanecendo em um estado "adormecido". A descoberta foi possível porque o telescópio registrou uma oscilação anormal na trajetória de uma estrela companheira, que possui cerca de 76% da massa solar e orbita o objeto em uma trajetória alongada. Esse "balanço" gravitacional indicou a presença de um corpo invisível e extremamente massivo.

Análises complementares com telescópios terrestres confirmaram a massa do Gaia BH3, situada entre 32,7 e 33 massas solares. O porte do objeto aproxima-se de buracos negros anteriormente observados apenas por ondas gravitacionais em colisões em galáxias distantes, como as registradas pelos observatórios LIGO e Virgo.

A ausência de emissão de raios X ou de acreção violenta de matéria — fenômenos comuns em buracos negros que "alimentam-se" de estrelas próximas — manteve o Gaia BH3 oculto por décadas. O observatório espacial Chandra também corroborou a baixa atividade energética do sistema.

Pesquisadores, com estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics, acreditam que o Gaia BH3 resultou do colapso de uma estrela ancestral com massa superior a 40 vezes a do Sol. A composição química do sistema revela que essa estrela original possuía baixa metalicidade, sendo pobre em elementos pesados. Essa característica é fundamental, pois estrelas com essa composição perdem menos massa durante a vida, permitindo a formação de buracos negros mais massivos após a explosão em supernovas.

O sistema apresenta ainda características orbitais incomuns: move-se em direção oposta ao fluxo típico das estrelas da galáxia e parece pertencer à corrente estelar ED-2, remanescente de um aglomerado destruído há bilhões de anos.

O achado desafia modelos atuais de evolução estelar, que consideravam buracos negros desse porte extremamente raros na Via Láctea moderna. A descoberta sugere que a galáxia pode abrigar uma população de gigantes invisíveis e adormecidos, que permanecem indetectáveis enquanto não houver interação com estrelas que facilitem a observação de seu movimento gravitacional.

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