Ciência

Cientistas identificam sinais no sangue que podem prever câncer de pulmão cinco anos antes do diagnóstico

30 de Junho de 2026 às 06:11

Cientistas do Francis Crick Institute identificaram 14 proteínas no sangue que, associadas a fatores de risco, podem prever o câncer de pulmão cinco anos antes do diagnóstico. O estudo, publicado na revista Cell, analisou dados de mais de 55 mil pessoas em diferentes países. A descoberta indica que a doença é precedida por um estado inflamatório no tecido pulmonar

Cientistas identificam sinais no sangue que podem prever câncer de pulmão cinco anos antes do diagnóstico
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Uma equipe de mais de cem cientistas, liderada por Charles Swanton, do Francis Crick Institute, no Reino Unido, identificou no sangue sinais que podem prever o surgimento de câncer de pulmão com até cinco anos de antecedência ao diagnóstico. O estudo, publicado na revista *Cell* em 25 de junho, revela que o desenvolvimento da doença é precedido por um estado de inflamação no tecido pulmonar, provocado por agentes como poluição, cigarro ou mutações silenciosas. Esse processo cria um ambiente favorável ao tumor antes mesmo que qualquer célula maligna ou massa seja detectável em tomografias.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores analisaram amostras de sangue congeladas do Biobanco do Reino Unido, que contém históricos de saúde de centenas de milhares de voluntários. Utilizando inteligência artificial, a equipe examinou quase 3 mil proteínas e isolou 14 delas que, quando combinadas à idade, ao histórico de tabagismo e à presença de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), previram a incidência do câncer com maior precisão do que os modelos de risco atuais. A validade do padrão foi confirmada em oito populações diferentes, abrangendo Estados Unidos, China e Islândia, totalizando mais de 55 mil pessoas.

Um ponto relevante da descoberta ocorreu em um grupo de Taiwan, composto majoritariamente por não fumantes, onde as mesmas proteínas indicaram risco de desenvolvimento da doença. O achado ajuda a explicar por que algumas pessoas que nunca fumaram desenvolvem o câncer, enquanto fumantes crônicos podem não apresentar a patologia. A variação biológica reside na resposta inflamatória de cada organismo: enquanto alguns não desenvolvem o "solo fértil" para o tumor mesmo expostos a gatilhos, outros, influenciados por poluição intensa ou mutações genéticas, manifestam essa inflamação independentemente do tabagismo.

Testes realizados em culturas de células e camundongos simularam a exposição humana à poluição, demonstrando que partículas inaladas levam as células de defesa a liberar uma proteína inflamatória. Esse mecanismo torna as células pulmonares mais maleáveis e propensas a se transformarem em tumores caso já possuam mutações associadas ao câncer. Esse mesmo gatilho inflamatório foi observado em casos de fibrose pulmonar e DPOC.

Atualmente, as diretrizes de rastreamento focam em tomografias anuais para pessoas entre 50 e 80 anos com histórico pesado de tabagismo (pelo menos 20 anos-maço), excluindo quem fumou pouco, quem parou há mais de 15 anos ou quem nunca fumou — grupo este que apresenta crescimento de casos, especialmente ligados a mutações no gene EGFR. A assinatura das 14 proteínas poderia, se validada, permitir a identificação de indivíduos que necessitam de exames de imagem precoces, independentemente dos critérios tradicionais.

Apesar do potencial, o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e membro da Americas Health Foundation, ressalta que há um longo caminho entre a pesquisa e a aplicação clínica. A assinatura proteica ainda não está disponível como exame laboratorial e requer anos de validação. Stefani pondera que os participantes de estudos nem sempre representam a população geral e que ainda não se sabe se a modificação dessa assinatura reduziria efetivamente o risco da doença. Além disso, a ausência de uma assinatura alta não elimina o risco nem justifica a manutenção de hábitos nocivos.

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