Cientistas investigam como o derretimento das geleiras da Groenlândia afeta a circulação do Atlântico Norte
O projeto GIANT, liderado pelo British Antarctic Survey, investiga entre 2025 e 2030 como o derretimento das geleiras da Groenlândia impacta a circulação do Atlântico Norte. A iniciativa utiliza sensores, robótica e inteligência artificial para mensurar o fluxo de água doce e aprimorar modelos climáticos

Uma equipe internacional de cientistas investiga como o derretimento das geleiras da Groenlândia pode impactar a circulação do Atlântico Norte. O foco do estudo é a entrada de grandes volumes de água doce no oceano, que, por ser menos densa e menos salgada que a água marinha, tende a formar uma camada superficial. Esse fenômeno, descrito pelos pesquisadores como uma "tampa", pode dificultar a mistura vertical das águas e reduzir a formação de massas densas que afundam e redistribuem o calor, interferindo em correntes que regulam o clima na América do Norte e na Europa.
A investigação integra o projeto GIANT (Greenland Ice sheet to AtlaNtic Tipping points from ice loss), liderado pelo British Antarctic Survey e financiado pela Advanced Research and Invention Agency. A colaboração, que reúne 17 parceiros, terá duração de cinco anos, com atividades programadas entre 1º de abril de 2025 e 31 de março de 2030. O objetivo é mensurar a liberação de água de derretimento nos fiordes da Groenlândia, rastrear esse fluxo até o Atlântico Norte e compreender a relação desse processo com a circulação oceânica.
A preocupação científica reside no fato de que a interação entre o oceano e as geleiras costeiras não é representada com precisão nos modelos climáticos globais. No caso da Groenlândia, a costa possui cerca de 200 fiordes estreitos e profundos, locais de difícil modelagem onde ocorre a liberação de icebergs e água doce. O projeto concentra suas análises em dois cenários distintos: as geleiras próximas a Kangerlussuaq, no sudeste, que terminam em paredes de gelo em contato com o mar através de fiordes longos, e a geleira Petermann, no noroeste, caracterizada por ser mais larga e possuir uma extensa língua flutuante.
Essa comparação permite avaliar as diferentes respostas ao aquecimento atmosférico e oceânico. Observou-se que, em certas áreas, a mistura de blocos de icebergs e gelo marinho pode retardar o desprendimento de novo gelo durante o inverno, mas o recuo das geleiras tende a ser mais rápido quando esse material se dispersa no verão.
Para coletar esses dados, a expedição utiliza o navio RRS Sir David Attenborough como base laboratorial para o lançamento de submarinos autônomos, embarcações não tripuladas, drones, satélites e sensores instalados no gelo. As medições abrangem a salinidade, temperatura, correntes, profundidade dos fiordes, formato do fundo marinho, além do monitoramento de rachaduras e do desprendimento de icebergs. O uso de sensores robóticos é fundamental, pois o ambiente de contato entre o gelo e o oceano é perigoso e de difícil acesso.
Paralelamente ao trabalho de campo, o projeto busca aprimorar o UK Earth System Model, principal modelo climático do Reino Unido, incorporando melhor a dinâmica dos fiordes. A modelagem é complexa porque interações em escala milimétrica podem influenciar correntes oceânicas a centenas de quilômetros de distância. Para viabilizar isso, o Alan Turing Institute utiliza inteligência artificial para organizar dados fragmentados de satélites e veículos autônomos, transformando-os em informações úteis para a previsão da camada de gelo.
O estudo também aborda o conceito de "ponto de inflexão", momento em que um sistema terrestre ultrapassa um limite crítico e as mudanças se aceleram, tornando-se difíceis de reverter. O Global Tipping Points Report destaca a circulação do Atlântico como área de atenção devido ao seu papel no transporte de calor e nos ecossistemas marinhos. Estimativas indicam que mudanças no Giro Subpolar do Atlântico Norte, localizado ao sul da Groenlândia, podem ocorrer já na década de 2040.
Como resposta à dificuldade de prever esses limiares, o GIANT testa um protótipo de sistema de alerta precoce. A ferramenta combina modelagem estatística, inteligência artificial e dados de campo e satélite para sinalizar aumentos súbitos na perda de gelo. Segundo a ARIA, a criação desses sistemas é essencial para que governos e a sociedade tenham instrumentos de adaptação climática diante de consequências potencialmente irreversíveis.
Além do impacto global na elevação do nível do mar e nos padrões de circulação, o recuo das geleiras afeta a dimensão local, prejudicando atividades tradicionais de pesca e a mobilidade de comunidades costeiras em áreas congeladas.