Ciência

Cientistas recuperam 42 páginas de manuscrito grego do século VI por meio de imagens multiespectrais

03 de Maio de 2026 às 18:06

Uma equipe internacional coordenada pela Universidade de Glasgow recuperou digitalmente 42 páginas do Códice H, manuscrito grego do século VI com epístolas de São Paulo. A reconstrução utilizou imagens multiespectrais para ler marcas químicas em pergaminhos reaproveitados em encadernações de outros livros. Testes de radiocarbono confirmaram a datação do material

Cientistas recuperaram 42 páginas perdidas do Códice H, um manuscrito grego do século VI que contém cópias das epístolas de São Paulo. A reconstrução foi realizada por uma equipe internacional coordenada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, sem a necessidade de localizar novos fragmentos físicos.

O processo baseou-se na análise de resíduos químicos e marcas quase invisíveis deixadas por tintas em pergaminhos reutilizados. No século XIII, o Códice H (também chamado de GA 015) foi desmontado no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Atos, Grécia, e suas folhas foram reaproveitadas em encadernações de outros livros, prática comum na época devido à escassez de materiais. Esse processo dispersou os fragmentos do documento por bibliotecas na França, Rússia, Ucrânia, Itália e Grécia.

A recuperação do conteúdo foi possível graças a um fenômeno físico: substâncias químicas da tinta utilizada nas novas escritas transferiram marcas para as folhas adjacentes, criando impressões indiretas do texto original. Garrick Allen explicou que esses compostos causaram danos por transferência que atravessaram páginas e, em alguns casos, múltiplas camadas do pergaminho, gerando o que os pesquisadores chamam de "texto fantasma".

Para tornar esses vestígios legíveis, a equipe utilizou imagens multiespectrais, técnica que capta diferentes comprimentos de onda de luz para evidenciar detalhes imperceptíveis ao olho nu. A abordagem permitiu isolar manchas e identificar variações na superfície do pergaminho, viabilizando a reconstrução digital do material. A autenticidade do pergaminho foi confirmada por testes de radiocarbono realizados em Paris, que atestaram a origem do material no século VI.

Embora os trechos recuperados não alterem o conteúdo das cartas paulinas, a descoberta revela detalhes sobre a organização e revisão de textos no período tardo-antigo. Foram identificadas correções feitas por escribas do século VI e listas de capítulos das epístolas organizadas de forma diferente das Bíblias modernas, configurando alguns dos registros mais antigos desse tipo.

O Códice H também se tornou o manuscrito mais antigo conhecido a incorporar o Aparelho de Eutálio, um sistema de apoio à leitura do Novo Testamento. Para a equipe, a recuperação de tantas páginas amplia a compreensão sobre a história material e as práticas de leitura da Antiguidade.

O projeto, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido e pelo Templeton Religion Trust, já disponibilizou a versão digital do conteúdo e prepara a publicação de uma edição impressa.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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