Ciência

Cinza de bagaço de cana-de-açúcar pode aprimorar o desempenho de misturas asfálticas, indica estudo

04 de Maio de 2026 às 06:08

Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá comprovaram que a substituição de 5% do fíler mineral por cinza de bagaço de cana-de-açúcar melhora o desempenho de asfalto-borracha. Testes laboratoriais e em campo na BR-158 indicaram aumento na estabilidade Marshall e no módulo de resiliência, além de redução na deformação permanente. A solução reduz custos e a extração de agregados minerais

Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, identificaram que a cinza proveniente da queima do bagaço da cana-de-açúcar pode ser utilizada para aprimorar o desempenho de misturas asfálticas. O estudo, publicado na revista *Scientific Reports*, avaliou a substituição parcial do fíler mineral — material fino essencial na composição do asfalto — por esse resíduo industrial abundante no Brasil.

A aplicação técnica não consiste na criação de uma estrada feita de cana, mas na incorporação da cinza em parte da composição de um pavimento asfáltico convencional. No experimento, o resíduo substituiu 5% dos agregados minerais totais em uma mistura de asfalto-borracha, tecnologia voltada para vias com tráfego pesado. A função da cinza é ocupar a fração fina da mistura, preenchendo espaços entre os agregados e influenciando a aderência interna e a resistência do pavimento contra deformações.

Análises laboratoriais revelaram que a cinza possui partículas menores, menor densidade e superfície mais irregular que o fíler convencional. Essas características alteraram parâmetros da mistura sem comprometer o teor de vazios, indicador fundamental para garantir as condições técnicas de desempenho do revestimento.

Os testes laboratoriais apontaram ganhos significativos: a estabilidade Marshall cresceu 40% e o ensaio de tração indireta subiu 22%. Em campo, a mistura foi aplicada em um trecho experimental da BR-158, entre Campo Mourão e Maringá. Os dados coletados nessa etapa mostraram um aumento de 18% no módulo de resiliência e de 73% no *Flow Number*, além de uma redução de 28% na taxa de deformação permanente em 10 mil ciclos no ensaio de fluência dinâmica. Outro teste, o *Hamburg Wheel Tracking Device*, indicou queda de 11% na deformação permanente após 20 mil ciclos. Tais indicadores são cruciais para evitar o surgimento de trilhas de roda e afundamentos em pistas submetidas a cargas repetitivas.

O trabalho, vinculado a uma pesquisa de mestrado do engenheiro civil Vinícius Milhan Hipólito, destaca que a solução reduz a necessidade de extração de agregados minerais, como o pó de pedra, e diminui o custo da mistura. O interesse pelo material é impulsionado pela escala da produção nacional; a Conab estimou a safra de cana 2025/2026 em 673,2 milhões de toneladas.

Do ponto de vista ambiental, a proposta reaproveita a cinza que sobra após a usina utilizar o bagaço como biomassa para geração de energia. Contudo, a viabilidade ecológica depende de análises individuais, considerando a distância entre a usina e a obra, o controle de qualidade do resíduo e a logística de transporte.

A pesquisa conclui que há viabilidade técnica para essa mistura específica, com teor definido de cinza e tipo determinado de ligante. Para que a tecnologia avance para além da etapa experimental e chegue ao uso comercial generalizado, será necessária a padronização granulométrica do material, a validação de sua durabilidade ao longo dos anos sob condições climáticas e de carga, além de monitoramento contínuo para comparação com as misturas asfálticas já consolidadas.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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