Conversão de resíduos urbanos em combustível aéreo pode reduzir emissões de gases poluentes em 90%
Estudo da Universidade Tsinghua e do Harvard-China Project indica que a conversão de resíduos sólidos urbanos em combustível sustentável de aviação pode reduzir emissões de gases de efeito estufa entre 80% e 90%. A produção anual de 50 milhões de toneladas desse combustível diminuiria em 16% as emissões do setor. O processo utiliza gaseificação e síntese Fischer-Tropsch para transformar lixo em hidrocarbonetos líquidos

A conversão de resíduos sólidos municipais em combustível sustentável de aviação (SAF) pode reduzir a intensidade de emissões de gases de efeito estufa entre 80% e 90% em comparação ao querosene fóssil. A descoberta é resultado de um estudo conduzido pela Universidade Tsinghua e pelo Harvard-China Project, que analisou a viabilidade de transformar lixo urbano — como plásticos, papéis e restos de alimentos — em hidrocarbonetos líquidos.
O processo técnico baseia-se na combinação de gaseificação e síntese Fischer-Tropsch. Nessa rota industrial, os resíduos são submetidos a altas temperaturas para a criação de um gás de síntese, que posteriormente passa por uma conversão química para gerar o combustível. Atualmente, a eficiência dessa conversão é de 33% do carbono de entrada, limitação que poderia ser superada com a implementação de captura de CO₂ e o uso de hidrogênio verde, desde que haja infraestrutura e energia renovável disponíveis.
A aplicação do SAF é estratégica para a aviação, setor que respondeu por cerca de 2,5% das emissões globais de CO₂ ligadas à energia em 2023, segundo a Agência Internacional de Energia. Diferente do transporte terrestre, a aviação comercial enfrenta barreiras técnicas para a eletrificação, devido ao peso das baterias e restrições de alcance. O hidrogênio também exige mudanças estruturais profundas em aeronaves e aeroportos. O SAF, por outro lado, é compatível com a frota atual, podendo ser misturado ao querosene convencional em proporções de até 50%, conforme certificações da Comissão Europeia.
Em termos de escala, o estudo indica que o lixo urbano global teria potencial para gerar 50 milhões de toneladas de combustível anualmente (62 bilhões de litros), o que reduziria em 16% as emissões do setor. Se o processo integrar o hidrogênio verde, a produção poderia subir para 80 milhões de toneladas por ano, atendendo a 28% da demanda global de combustível aéreo e evitando a emissão de 270 milhões de toneladas de CO₂ anualmente.
Apesar do potencial, a oferta de SAF ainda é baixa. A Associação Internacional de Transporte Aéreo projeta que, em 2025, a produção representará apenas 0,7% da necessidade total do setor. Além dos resíduos sólidos, outras frentes de pesquisa investigam o uso de lodo de esgoto e a captura de metano e dióxido de carbono de aterros sanitários para a produção de combustíveis sintéticos.
A viabilidade dessa transição depende de custos competitivos, oferta de matéria-prima e marcos regulatórios. Nos Estados Unidos, o Sustainable Aviation Fuel Grand Challenge visa produzir 3 bilhões de galões por ano até 2030 e 35 bilhões até 2050. Na União Europeia, a norma ReFuelEU Aviation exige que a participação de SAF nos aeroportos suba de 2% em 2025 para 70% em 2050. No Brasil, o ProBioQAV, instituído pela Lei do Combustível do Futuro, estabelece metas de redução de emissões para voos domésticos a partir de 2027, iniciando em 1% e atingindo 10% em 2037.
Para a implementação prática, é necessária uma cadeia integrada que envolva a separação e coleta rigorosa de resíduos nas cidades, a operação de usinas de gaseificação em escala industrial e o cumprimento de normas técnicas de segurança aérea. A análise econômica do estudo sugere que esses combustíveis se tornam mais competitivos em modelos de precificação de carbono e com o apoio de incentivos públicos, embora a gaseificação em larga escala permaneça como o principal desafio técnico.