Cosmonauta Sergei Krikalev permaneceu no espaço durante a desintegração da União Soviética
O cosmonauta Sergei Krikalev permaneceu 312 dias na estação espacial Mir, partindo em maio de 1991 e retornando em março de 1992. A estadia foi prolongada devido à desintegração da União Soviética e à falta de substitutos. Krikalev orbitou a Terra 5 mil vezes durante a missão
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Sergei Krikalev, engenheiro mecânico formado em 1981 e cosmonauta treinado por quatro anos, tornou-se historicamente conhecido como "o último cidadão soviético" após uma missão que extrapolou drasticamente o planejamento original. Em 18 de maio de 1991, ele partiu do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a bordo da Soyuz TM-12 com destino à estação espacial Mir. Acompanhado por Anatoly Artsebarsky e pela britânica Helen Sharman — que retornou após uma semana —, Krikalev e Artsebarsky deveriam realizar reparos e melhorias na estação por cinco meses.
Enquanto a rotina de manutenção ocorria no espaço, a União Soviética enfrentava um processo de desintegração acelerada. A política de "Perestroika", implementada pelo presidente Mikhail Gorbachev para modernizar o país e aproximá-lo do capitalismo através da descentralização econômica e da permissão de empresas privadas, gerou forte resistência no Partido Comunista e incentivou repúblicas a declararem independência. O cenário foi agravado entre 19 e 21 de agosto de 1991, quando uma ala conservadora do Partido Comunista tentou, sem sucesso, um golpe contra Gorbachev.
Nesse contexto de instabilidade, Krikalev foi solicitado a permanecer na órbita terrestre por tempo indeterminado. A ausência de um substituto imediato e a promessa do governo soviético de enviar um cosmonauta do Cazaquistão — que acabara de se tornar independente — na próxima troca de pessoal prolongaram sua estadia. Em outubro, a missão Soyuz TM-13 levou Alexander Volkov para a Mir; Volkov substituiu Artsebarsky, que retornou à Terra, deixando Krikalev sem alternativa a não ser continuar a missão.
A permanência prolongada gerou preocupação em observadores externos, especialmente nos Estados Unidos. A Nasa alerta que a exposição prolongada à radiação espacial aumenta riscos de doenças degenerativas e câncer, enquanto a ausência de gravidade provoca a perda de massa óssea e muscular, além de alterações no sistema imunológico. O isolamento também pode causar instabilidades psicológicas e mudanças de humor.
Durante esse período, Krikalev utilizava o rádio da estação para conversar com radioamadores na Terra, tornando-se um pioneiro nessa prática. Foi por meio de informações vindas do Ocidente que ele compreendeu a gravidade da crise em seu país, já que a narrativa oficial soviética omitia a instabilidade. Até mesmo sua esposa, Elena Terekhina, que atuava como operadora de rádio no programa espacial, não lhe fornecia detalhes sobre os acontecimentos terrestres.
O colapso total da União Soviética ocorreu em 25 de dezembro de 1991, data em que Gorbachev renunciou alegando motivos de saúde. A potência comunista fragmentou-se em 15 nações, e a cidade natal de Krikalev, Leningrado, foi renomeada como São Petersburgo.
O retorno de Sergei Krikalev e Alexander Volkov aconteceu apenas em 25 de março de 1992. Ao todo, Krikalev orbitou a Terra 5 mil vezes durante 312 dias. No pouso, apresentava-se pálido, suado e dependente do apoio de quatro pessoas para se manter em pé, descrevendo o retorno como a libertação de um fardo psicológico.
Após a recuperação, Krikalev integrou, no ano 2000, a primeira tripulação da Estação Espacial Internacional (ISS), projeto que substituiu a rivalidade da corrida espacial por um modelo de cooperação global. A estação Mir foi aposentada no ano seguinte, após 15 anos de operação. Atualmente, o cosmonauta ocupa o cargo de diretor executivo de programas espaciais tripulados da Roscosmos.