Ciência

Descarga hormonal da paixão provoca alterações cerebrais semelhantes às de transtornos psiquiátricos

12 de Junho de 2026 às 09:18

A sensação de "borboletas no estômago" decorre da liberação de dopamina, noradrenalina e cortisol, que altera o funcionamento cerebral e as emoções. A transição da paixão para o amor ocorre entre seis meses e dois anos, com a substituição desses hormônios por serotonina e oxitocina

Descarga hormonal da paixão provoca alterações cerebrais semelhantes às de transtornos psiquiátricos
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A sensação de "borboletas no estômago", comum em estados de paixão, é o resultado físico de uma intensa descarga hormonal no organismo. A combinação de dopamina, noradrenalina e cortisol gera um estado de alerta que manifesta sintomas como sudorese nas mãos e aceleração dos batimentos cardíacos, misturando euforia, prazer e ansiedade.

Essa reação química provoca alterações cerebrais significativas. Um estudo conduzido pela antropóloga Helen Fisher em 2005 demonstrou que o cérebro de indivíduos apaixonados apresenta modificações semelhantes às observadas em transtornos psiquiátricos. De acordo com o médico especialista em medicina psicossomática Rubens Cascapera, o processo desregula as amígdalas cerebrais, centro das emoções, e ativa o núcleo accumbente, região responsável pela sensação de prazer.

A instabilidade emocional do período é alimentada por um desequilíbrio hormonal: enquanto os níveis de cortisol — hormônio ligado ao estresse — sobem drasticamente, a serotonina, responsável pela calma e bem-estar, sofre uma queda. A dopamina, liberada em excesso, atua como um mecanismo de vício, o que pode levar à "cegueira da paixão". Nesse estado, a pessoa perde o controle e deixa de enxergar o parceiro como ele realmente é, substituindo a realidade por um conjunto de expectativas e fantasias. Essa intensidade era tamanha que, durante a Idade Média, a paixão era classificada como uma doença.

A transição da paixão para o amor ocorre geralmente entre seis meses e dois anos de relacionamento. Segundo o professor de química Michel Arthaud, essa mudança é marcada por uma alteração na química cerebral: a dopamina e o cortisol diminuem, dando lugar à serotonina e à oxitocina, hormônio fundamental para a criação de vínculos afetivos.

Para o psicanalista Christian Dunker, esse processo de migração envolve a substituição da fantasia pela realidade, transformando a imagem idealizada do outro em uma pessoa real, com imperfeições. Quando não ocorre essa transição, o indivíduo pode permanecer dependente da dopamina, vivenciando a paixão como uma droga. Esse ciclo de desejo e medo da perda mobiliza transformações profundas que, para muitos, tornam-se viciantes.

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