Ciência

Desintegração de foguete chinês gera fragmentos que cruzam a rota da Estação Espacial Internacional

16 de Junho de 2026 às 15:19

A desintegração da segunda etapa do foguete chinês Zhuque-2E em 9 de junho gerou entre 100 e 150 fragmentos em órbita baixa. Os destroços cruzam a rota da Estação Espacial Internacional e de satélites Starlink, mas o Comando Espacial dos Estados Unidos não identificou ameaças aos voos tripulados

Desintegração de foguete chinês gera fragmentos que cruzam a rota da Estação Espacial Internacional
Un cohete de la compañía Landspace.

A desintegração da segunda etapa do foguete chinês Zhuque-2E, ocorrida em 9 de junho, gerou entre 100 e 150 fragmentos rastreáveis em órbita baixa. O incidente aconteceu após o veículo ter posicionado dois satélites de comunicação. O componente principal do foguete, com 8 metros de comprimento e 3,35 metros de diâmetro, mantém uma trajetória com inclinação de 54,5 graus e altitude entre 335 e 424 quilômetros, cruzando a rota da Estação Espacial Internacional (ISS).

A área afetada pelos destroços coincide com as altitudes de operação da ISS e de parte da constelação Starlink, expondo temporariamente os novos satélites da SpaceX que orbitam em níveis inferiores ao restante da rede. Apesar do risco, a fricção atmosférica deve forçar a reentrada da maioria desses fragmentos em alguns meses, já que objetos abaixo de 650 quilômetros sucumbem à resistência do ar. O Comando Espacial dos Estados Unidos informou que os detritos foram integrados à avaliação rotineira de objetos e que, no momento, não há ameaças aos voos tripulados.

O episódio exemplifica a vulnerabilidade da órbita baixa ao chamado "síndrome de Kessler", um processo matemático onde colisões geram destroços que, por sua vez, provocam novos impactos, criando uma reação em cadeia que pode tornar o espaço permanentemente intransitável. Esse cenário de ameaça sistêmica é agravado pelo aumento da densidade de objetos. A SpaceX, que detém 66% do hardware operacional na órbita terrestre com mais de 10.000 satélites, planeja expandir sua frota para entre 34.000 e 75.000 unidades, tendo solicitado autorização para lançar até um milhão de satélites adicionais.

A escala dessas constelações eleva a probabilidade de falhas. Com uma vida útil de cinco anos por unidade, mesmo uma taxa de sucesso de 99% na desorbitação resultaria na adição de 300 satélites inoperantes a cada cinco anos em uma rede de 30.000 aparelhos. Exemplos de instabilidade já foram registrados, como a dispersão de fragmentos metálicos por um Starlink defeituoso em 17 de dezembro de 2025 e a necessidade de a estação espacial chinesa Tiangong realizar duas manobras de emergência para evitar hardware da SpaceX. Além disso, a Administração Federal de Aviação dos EUA estimou, em 2023, que a queda de destroços poderá causar vítimas civis até 2035.

Para mitigar colisões, a SpaceX já efetuou 50.000 manobras de evasão autônomas desde 2019. No entanto, o estudo europeu ASCEND sugere que, para garantir a segurança orbital, os centros de dados deveriam ser limitados a 1.000 unidades a 1.400 quilômetros de altitude, volume significativamente menor do que o pleiteado pela empresa americana.

O histórico de fragmentação em órbita baixa aponta a China como um fator crítico: três dos quatro maiores eventos desse tipo são de origem chinesa, incluindo duas explosões de etapas do foguete Long March 6A nos últimos quatro anos. Diferente do caso do Zhuque-2E, esses destroços foram espalhados em planos orbitais mais elevados, onde permanecerão ativos por centenas de anos. Na última década, a massa de etapas chinesas abandonadas em órbita alta cresceu 150%, enquanto os índices de Rússia e Estados Unidos estabilizaram ou caíram.

Embora existam normas internacionais que exijam combustível para a reentrada controlada de etapas de foguetes — requisito não cumprido pelo Zhuque-2E —, não há um organismo com autoridade para impor sanções. Atualmente, a maior parte dos detritos persistentes provém de lançamentos soviéticos, russos, americanos e chineses, evidenciando a necessidade de um consenso global para a gestão do tráfego espacial.

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