Ciência

Desmatamento antecipa ponto de ruptura da Amazônia diante do aquecimento global, indica estudo da Nature

21 de Maio de 2026 às 12:22

Estudo publicado na revista Nature indica que o desmatamento da Amazônia antecipa o ponto de ruptura do ecossistema para um aquecimento global entre 1,5 °C e 1,9 °C. A remoção da vegetação reduz a reciclagem de umidade, podendo afetar até 77% da bacia florestal até o fim do século

Desmatamento antecipa ponto de ruptura da Amazônia diante do aquecimento global, indica estudo da Nature
Desmatamento na Amazônia acelera seca e aquecimento global, ameaçando a floresta amazônica em reação climática.

A remoção da cobertura vegetal na Amazônia reduz a capacidade da floresta de gerar suas próprias chuvas, tornando o ecossistema mais suscetível a um ciclo de aquecimento global, secas e degradação. De acordo com estudo publicado na revista Nature em 6 de maio de 2026, assinado por Nico Wunderling, Boris Sakschewski, Johan Rockström, Bernardo M. Flores, Marina Hirota e Arie Staal, o desmatamento diminui a margem de segurança da região diante da elevação das temperaturas globais.

A estabilidade da bacia amazônica depende de um ciclo interno de umidade, no qual as árvores absorvem água do solo e a devolvem à atmosfera via evapotranspiração, alimentando novas precipitações. Quando a vegetação é retirada, esse mecanismo é enfraquecido, resultando em menor reciclagem de umidade e maior estresse hídrico, especialmente em áreas que já enfrentam secas severas.

A pesquisa combinou dados sobre mudanças no uso da terra, transporte de umidade e aquecimento global para estimar a perda de estabilidade da floresta. Os resultados indicam que, sem a interferência do desmatamento, o limiar crítico de transição ocorreria com um aquecimento global entre 3,7 °C e 4,0 °C. No entanto, ao integrar a perda de árvores, esse ponto de ruptura pode ser antecipado para uma faixa entre 1,5 °C e 1,9 °C, caso haja um desmatamento de 22% a 28% da bacia.

O estudo alerta para a ocorrência de "transições em cascata", fenômeno em que a degradação de uma zona reduz a umidade enviada para outra, gerando um efeito dominó de ressecamento autossustentável que atinge áreas distantes da derrubada original. Nesse contexto, a localização do desmatamento é determinante, pois a perda de florestas em pontos estratégicos pode interromper rotas de umidade que seguem a direção dos ventos.

Simulações de cenários com desmatamento severo apontam que, até o fim do século, a transição sistêmica poderia afetar mais de 62% da bacia florestal, chegando a 77% em casos de emissões de gases mais altas. Esse processo de perda de estabilidade não ocorre instantaneamente, podendo levar décadas ou séculos para se consolidar após a ultrapassagem dos limites críticos.

As consequências da desestabilização da Amazônia extrapolam a bacia, podendo prejudicar a agricultura e o regime hídrico no sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e na bacia do Rio da Prata, na Argentina.

Para mitigar esses riscos, os autores apontam que a manutenção dos níveis atuais de desmatamento é fundamental para evitar transições em larga escala. As medidas centrais para reduzir a probabilidade de mudança sistêmica incluem a interrupção da derrubada de árvores, a restauração de áreas degradadas para recuperar a reciclagem de umidade e a limitação do aquecimento global abaixo de 1,5 °C. O trabalho ressalta, porém, que florestas primárias possuem funções ecológicas e biodiversidade que não são totalmente substituídas por áreas regeneradas.

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