Ciência

Desvio na corrente Kuroshio intensificou chuvas extremas e elevou a temperatura do mar no Japão

24 de Maio de 2026 às 15:05

Um desvio na Extensão Kuroshio elevou a temperatura da superfície do mar em cerca de 6°C acima da média entre fevereiro de 2023 e janeiro de 2025. O fenômeno alterou a fauna marinha na região de Sanriku e intensificou chuvas extremas no Japão em 2023

Desvio na corrente Kuroshio intensificou chuvas extremas e elevou a temperatura do mar no Japão
Corrente Kuroshio desviou para o norte do Japão, aqueceu Sanriku em 6°C e pode ter intensificado chuvas extremas.

Um desvio incomum na rota da Extensão Kuroshio, corrente quente do Pacífico Norte, alterou a temperatura oceânica próxima ao Japão e intensificou episódios de chuvas extremas em 2023. O fenômeno, caracterizado por um meandro acentuado para o norte, começou no final de 2022 e atingiu a região da Prefeitura de Aomori no inverno de 2023, configurando um deslocamento sem precedentes nos registros de satélite iniciados em 1993.

Habitualmente, a corrente se separa da costa na Península de Boso, em Chiba, e segue para leste, em torno de 36°N. No entanto, a partir de abril de 2023, a Extensão Kuroshio desviou sua trajetória, alcançando aproximadamente 40°N no inverno de 2024. Esse movimento levou águas tropicais a áreas onde a corrente Kuroshio interage com a corrente subártica Oyashio, zona fundamental para a produtividade pesqueira ao largo de Sanriku.

Dados do projeto Habitable Japan indicam que, entre fevereiro de 2023 e janeiro de 2025, a temperatura da superfície do mar na região permaneceu cerca de 6°C acima da média. Esse aquecimento prolongado é classificado como um dos mais intensos já observados nos oceanos no período, considerando a magnitude da anomalia térmica e sua duração. A alteração não se restringiu à superfície: medições da Agência Meteorológica do Japão em maio de 2024 detectaram água subtropical quente e salgada em profundidades entre 50 e 400 metros, chegando a atingir 700 metros em partes de Sanriku.

A reorganização térmica impactou a fauna marinha local. Como a região de Sanriku depende do encontro entre as massas de água quente e fria para a distribuição de plâncton e peixes, a mudança de posição dessa fronteira oceânica favoreceu espécies de águas quentes. Pesquisadores registraram, desde 2023, a presença de peixes típicos de regiões meridionais ao largo da Prefeitura de Miyagi, onde não eram comuns, alterando as expectativas econômicas e as áreas de captura das comunidades pesqueiras.

Os efeitos do fenômeno estenderam-se à atmosfera. O aquecimento do oceano elevou a liberação de calor para o ar, afetando camadas atmosféricas a até 2 quilômetros de altitude sobre Sanriku. A Agência Meteorológica do Japão associou esse aquecimento marinho ao calor extremo registrado no norte do país em 2023 — ano com a maior média nacional de verão desde 1898 —, embora o órgão ressalte que esse cenário foi resultado da atuação conjunta de tufões, correntes de jato e áreas de alta pressão.

A relação entre o desvio da corrente e a precipitação extrema também foi comprovada por simulações numéricas de alta resolução publicadas em 2025. O estudo concluiu que a onda de calor marinha aumentou a disponibilidade de vapor d’água e calor na atmosfera, favorecendo a formação de nuvens carregadas. Em eventos de chuva ocorridos em setembro de 2023, a anomalia oceânica teria adicionado cerca de 300 milímetros de precipitação em cenários específicos.

A trajetória da corrente, que passou por Ibaraki, Fukushima, Miyagi e Iwate antes de chegar a Aomori, manteve o meandro extremo até fevereiro de 2025. Em setembro daquele ano, observou-se que a Extensão Kuroshio fluía de forma mais calma ao largo de Ibaraki. Devido à possibilidade de novas oscilações alterarem novamente o ambiente do nordeste japonês, o monitoramento permanece ativo por meio de satélites, sensores e navios de pesquisa.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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