Empresa desenvolve ovo artificial para viabilizar a recuperação de espécies de aves extintas
A Colossal Biosciences criou um ovo artificial de silicone para incubar embriões de aves, visando a recuperação do moa gigante. A tecnologia mimetiza a troca de gases de ovos naturais e é escalável para diferentes tamanhos. O dispositivo também pode ser aplicado na conservação de espécies ameaçadas e em pesquisas biomédicas
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A empresa de biotecnologia Colossal Biosciences desenvolveu um ovo artificial capaz de incubar embriões de aves fora de uma casca biológica. A tecnologia consiste em uma estrutura em grade com uma membrana de silicone de bioengenharia, projetada para mimetizar a transferência de oxigênio e a permeabilidade de gases, como o dióxido de carbono, observadas em ovos naturais sob condições atmosféricas normais.
O objetivo central do dispositivo é viabilizar a recuperação de espécies extintas, com foco inicial no moa gigante da Nova Zelândia, desaparecido há mais de cinco séculos. A necessidade de um ovo artificial surge porque não existem espécies vivas capazes de produzir ovos do tamanho exigido por essa ave, cujo ovo é cerca de oito vezes maior que o de um emu e 80 vezes superior ao de uma galinha. De acordo com George Church, cofundador da empresa e professor de Genética em Harvard, a plataforma é escalável, adaptável a qualquer tamanho de ovo e compatível com incubadoras comerciais.
A Colossal Biosciences já possui um histórico de projetos de desextinção, tendo anunciado em 2021 a intenção de recuperar o mamute lanoso, extinto há 4.000 anos, e o lobo gigante, desaparecido há 13.500 anos. No entanto, a empresa ainda não concretizou a ressurreição dessas espécies devido a dificuldades técnicas, especialmente a ausência de animais vivos compatíveis para a gestação. Para mamíferos, a solução proposta é a gestação extrauterina via úteros artificiais que forneçam oxigenação e nutrientes.
Apesar dos anúncios, a comunidade científica mantém reservas, pois os resultados do ovo artificial, testado inicialmente com embriões de galinha, não foram publicados em revistas científicas nem passaram por revisão por pares. Biólogos e pesquisadores, como Louise Johnson, da Universidade de Reading, e Carles Lalueza-Fox, do Museu de Ciências Naturais de Barcelona, apontam que a comunicação da empresa frequentemente mistura avanços reais com publicidade. Um exemplo ocorreu com o lobo gigante: a empresa afirmou ter alcançado a desextinção, mas na prática produziu lobos cinzentos geneticamente modificados.
No campo da genética, a Colossal demonstrou progresso ao utilizar a ferramenta CRISPR para editar genomas. O pesquisador Lluís Montoliu destaca que a empresa conseguiu incorporar sete modificações do genoma do mamute em ratos e editar 14 genes de células de lobos cinzentos para criar animais com características semelhantes às do lobo branco gigante.
Além da desextinção, a tecnologia de incubação artificial pode ser aplicada na conservação de espécies ameaçadas que apresentam dificuldades de reprodução em cativeiro, oferecendo um ambiente controlado. Matt James, diretor de fauna da The Colossal Foundation, afirma que o projeto, embora focado no moa, visa auxiliar espécies em perigo crítico. Outras aplicações incluem a biomedicina, como a pesquisa de úteros artificiais para salvar bebês prematuros, e a biotecnologia, permitindo que galinhas transgênicas produzam proteínas terapêuticas na clara do ovo de forma mais eficiente.