Ciência

Equipe coordenada pela USP desenvolve método para identificar estrelas que absorveram planetas rochosos

17 de Junho de 2026 às 18:05

Equipe coordenada pela USP criou método para identificar estrelas que absorveram planetas monitorando a abundância de berílio. Estudo publicado na Astronomy & Astrophysics detectou na estrela HD 129171 a ingestão de material rochoso superior a 11 massas terrestres. A análise utilizou o espectrógrafo UVES do Very Large Telescope, no Chile

Equipe coordenada pela USP desenvolve método para identificar estrelas que absorveram planetas rochosos
Anne Rathsam/com IA

Pesquisadores de uma equipe internacional, coordenada pela Universidade de São Paulo (USP), desenvolveram um método para identificar estrelas que absorveram planetas de seus próprios sistemas. A técnica consiste em monitorar variações na abundância de berílio, um elemento químico raro que serve como indicador de que a estrela engoliu material rochoso após a sua formação.

O estudo, publicado na última terça-feira (16) na revista *Astronomy & Astrophysics*, analisou o sistema binário composto pelas estrelas HD 129171 e HD 129209. Ambas são do tipo solar, com características físicas, químicas e de atividade magnética semelhantes às do Sol. Como estrelas binárias nascem simultaneamente da mesma nuvem molecular de gás e poeira, espera-se que possuam a mesma composição química. No entanto, a análise revelou disparidades significativas entre as duas.

A estrela HD 129171 apresentou um enriquecimento de elementos refratários — como ferro, magnésio, silício, cálcio e titânio —, que são componentes típicos de planetas rochosos. Além disso, houve a detecção de excesso de berílio e lítio. De acordo com os pesquisadores, esse padrão indica a ingestão de material rochoso equivalente a mais de 11 vezes a massa da Terra, que pode ter sido proveniente de um único planeta grande ou de vários corpos menores.

A escolha do berílio como marcador é estratégica porque esse elemento não é produzido no núcleo das estrelas. Enquanto o lítio também é usado para esse fim, ele é destruído com mais facilidade; o berílio, por ser mais resistente, mantém sua assinatura química por mais tempo. Diferente da maioria dos elementos, que surgem na nucleossíntese primordial ou estelar, o berílio e o boro são resultantes da espalação cósmica, processo em que partículas de alta energia fragmentam núcleos de carbono, nitrogênio e oxigênio.

Para obter esses dados, a equipe utilizou o espectrógrafo UVES do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, que permite a identificação de assinaturas químicas sutis por meio da decomposição da luz estelar.

O trabalho também abordou a dinâmica que leva planetas a serem absorvidos por suas estrelas, citando migrações orbitais, perturbações de estrelas companheiras e interações gravitacionais entre planetas. Tais processos podem tornar as órbitas instáveis, resultando em colisões ou na ejeção de planetas do sistema.

Essas descobertas sugerem que sistemas estáveis como o Sistema Solar, com planetas gigantes em órbitas externas circulares e rochosos em órbitas internas seguras, podem ser raros. Evidências de simulações computacionais e levantamentos de análogos de Júpiter reforçam a tese de que muitas arquiteturas planetárias passam por fases dinâmicas violentas. Para a evolução de vida complexa, isso implica que não basta o tempo de bilhões de anos, mas é necessária a manutenção de uma órbita estável contra perturbações gravitacionais.

A pesquisa, que contou com a colaboração de instituições da Polônia, China, Austrália e Itália, além de apoio da FAPESP, também impacta a técnica de "chemical tagging", usada para reconstruir a história da Via Láctea. A confirmação de que a ingestão planetária altera a composição de estrelas binárias valida a hipótese de que tais diferenças não decorrem de heterogeneidades na nuvem primordial, preservando os modelos atuais de formação estelar.

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