Ciência

Erupção de vulcão no Pacífico revela mecanismo atmosférico capaz de remover metano da atmosfera

10 de Maio de 2026 às 15:14

A erupção do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, em janeiro de 2022, revelou um mecanismo de remoção de metano na estratosfera. Pesquisadores identificaram a destruição do gás por meio de níveis de formaldeído detectados pelo satélite Sentinel-5P. O estudo, publicado na Nature Communications, indica que a interação entre cinzas, água salgada e luz solar gerou cloro reativo

Erupção de vulcão no Pacífico revela mecanismo atmosférico capaz de remover metano da atmosfera
Erupção em Tonga revelou reação capaz de destruir metano na atmosfera e pode mudar estudos sobre aquecimento global.

A erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, ocorrida em janeiro de 2022 no Pacífico Sul, revelou a existência de um mecanismo atmosférico capaz de remover parcialmente o metano da atmosfera. O fenômeno foi identificado por meio de níveis recordes de formaldeído detectados na pluma vulcânica, substância que surge durante a decomposição do metano. Através de imagens do instrumento TROPOMI, do satélite Sentinel-5P da Agência Espacial Europeia, pesquisadores rastrearam a nuvem por dez dias até a América do Sul, comprovando que a destruição do gás ocorreu de forma contínua por mais de uma semana.

A descoberta, publicada na revista Nature Communications, indica que a interação entre cinzas vulcânicas, água salgada e luz solar na alta estratosfera criou cloro altamente reativo. Esse processo químico, que resultou na eliminação do metano liberado pela própria erupção, assemelha-se a uma reação observada em 2023 envolvendo poeira do Deserto do Saara e sal marinho sobre o Oceano Atlântico. No entanto, o caso de Tonga é singular por ocorrer na estratosfera, ambiente com condições físicas distintas da troposfera.

Para validar a presença do formaldeído, a equipe de cientistas — composta por pesquisadores de instituições da Holanda, Bélgica, Espanha, Dinamarca e outros centros europeus, com apoio da Spark Climate Solutions e materiais da Universidade de Copenhague — realizou ajustes na sensibilidade do satélite. Foi necessário corrigir a altitude do sinal e neutralizar a interferência de altas concentrações de dióxido de enxofre.

Em termos quantitativos, estima-se que a erupção tenha liberado cerca de 300 gigagramas de metano, volume comparável às emissões anuais de mais de dois milhões de vacas. Paralelamente, a pluma vulcânica removeu aproximadamente 900 megagramas do gás por dia, o que equivale às emissões diárias de dois milhões de vacas.

Esse achado impacta as estimativas globais do balanço de metano, pois a poeira atmosférica e vulcânica não era contabilizada nos cálculos de entrada e remoção do poluente. A correção desses dados é fundamental, dado que o metano é responsável por um terço do aquecimento global atual e retém cerca de 80 vezes mais calor que o dióxido de carbono em um intervalo de 20 anos.

Diferente do CO₂, o metano se decompõe em cerca de dez anos, tornando sua redução uma estratégia de resposta climática rápida, descrita como um "freio de emergência" para desacelerar o aquecimento na próxima década e mitigar pontos de inflexão climática, embora a redução de CO₂ continue sendo essencial a longo prazo.

A capacidade de monitorar essa decomposição via satélite abre caminho para a exploração de métodos de engenharia que busquem acelerar artificialmente a remoção de metano. Contudo, a comunidade científica ressalta que qualquer aplicação prática dependerá de comprovações rigorosas de segurança e eficácia.

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