Estudo associa seca severa ao declínio do Império Hitita na Anatólia central
Estudo publicado na Nature indica que uma seca severa entre 1198 e 1196 a.C. coincidiu com a queda do Império Hitita. A análise de anéis de árvores e isótopos de zimbros na Anatólia central revelou que o período de três anos esteve entre os 6,25% mais secos de uma série de sete séculos

Uma análise de anéis de árvores e isótopos estáveis de zimbros da Anatólia central revelou que uma seca severa e contínua, ocorrida entre 1198 e 1196 a.C., coincidiu com a queda do Império Hitita. O estudo, liderado pelo professor Sturt Manning, da Universidade Cornell, e publicado na Nature em 8 de fevereiro de 2023, identifica que esse período de três anos esteve entre os 6,25% mais secos de uma série histórica de mais de sete séculos.
A pesquisa utilizou a dendrocronologia e a análise de isótopos de oxigênio-18 em madeiras preservadas no Midas Mound Tumulus, uma estrutura funerária em Gordion, a oeste de Ancara. Enquanto a largura dos anéis de crescimento indicava estresse hídrico, a proporção dos isótopos confirmou a ocorrência de condições anormalmente secas. Os dados mostram que a janela entre 1198 e 1187 a.C. apresentou seis ou sete anos situados entre os 20% mais secos da série, evidenciando que a seca extrema ocorreu dentro de uma década de deterioração climática.
O Império Hitita, estabelecido por volta de 1650 a.C. na região da atual Turquia, dominou o Oriente Próximo por cinco séculos antes de sua capital, Hattusa, ser abandonada e a civilização desaparecer por volta de 1200 a.C. Esse declínio integrou o Colapso da Idade do Bronze (1200 a 1150 a.C.), que afetou diversas civilizações do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Próximo, resultando na queda do Império Micênico, na destruição de cidades-estado no Chipre, na queima de Ugarit e no enfraquecimento do Egito.
Embora fatores como terremotos, revoltas internas, interrupções comerciais e invasões dos Povos do Mar tenham sido apontados como causas do colapso, o estudo de Manning posiciona a falha agrícola extrema como um fator multiplicador da crise. John Marston, coautor da pesquisa, observa que as populações possuíam reservas para enfrentar um ano de estiagem, mas não três anos consecutivos. A fome resultante comprometeu a capacidade do Estado hitita de manter sua burocracia, exércitos, cidades e redes de abastecimento.
Essas evidências ambientais convergem com registros históricos. Cartas trocadas entre governantes hititas, egípcios e cipriotas da época mencionam a escassez de grãos, incluindo um pedido urgente de alimentos enviado pelo último rei hitita ao faraó egípcio.
Apesar de a sociedade hitita possuir estruturas sofisticadas, como códigos de leis, diplomacia e armazéns de grãos, a sequência de quebras nas colheitas superou a capacidade de adaptação do sistema. Jason Ur, pesquisador de Harvard, associa a falha dessas sociedades antigas à inflexibilidade diante de condições ambientais cada vez mais áridas.
O estudo ressalta que, embora a Turquia e outras nações modernas possuam logística, seguros agrícolas e comércio global para amortecer choques que destruiriam civilizações antigas, a região da Anatólia e do Mediterrâneo Oriental permanece vulnerável. Modelos do IPCC para cenários de emissões intermediárias e altas projetam aumento de temperatura e redução de chuvas para o século XXI, indicando que o risco atual reside na capacidade política e institucional de responder a crises climáticas que fogem ao padrão histórico.