Ciência

Estudo da UFRJ detecta antidepressivo sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo no Rio de Janeiro

16 de Junho de 2026 às 12:13

Pesquisadores da UFRJ detectaram sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo capturados na costa do Rio de Janeiro. O estudo do Projeto EcoShark identificou a presença do antidepressivo em animais criticamente ameaçados de extinção

Estudo da UFRJ detecta antidepressivo sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo no Rio de Janeiro
Documentário Ecoshark/Reprodução/Youtube

A detecção de sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro revela a presença de contaminantes farmacêuticos em predadores de topo. O estudo, conduzido pelo Projeto EcoShark sob coordenação da professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, contou com a colaboração dos cientistas José Neto e Victor Alves. A pesquisa, já compartilhada no âmbito da universidade e aguardando publicação, é pioneira ao analisar contaminantes emergentes em elasmobrânquios.

Os exemplares de tubarões-martelo (*Sphyrna lewini* e *S. zygaena*), classificados como criticamente ameaçados de extinção pelo Ibama e pela IUCN, foram capturados acidentalmente em redes de pesca nas regiões de Copacabana, Barra da Tijuca e Recreio, por meio de uma parceria entre pescadores e pesquisadores da UFRJ. Por ocuparem o topo da cadeia alimentar, esses animais bioacumulam substâncias presentes na água, nos sedimentos e em suas presas.

A presença do fármaco no cérebro dos tubarões está relacionada à afinidade da sertralina por tecidos ricos em lipídios e pelo sistema nervoso. O caminho do medicamento até o oceano começa com o consumo humano: a sertralina, antidepressivo mais prescrito no Brasil, é metabolizada no fígado e excretada pelo organismo, chegando aos sistemas de esgoto. Como as estações de tratamento convencionais são projetadas para remover matéria orgânica e microrganismos, a remoção de compostos farmacêuticos é incompleta.

No estado do Rio de Janeiro, dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) indicam que apenas 47% do esgoto gerado era efetivamente tratado. Grande parte dos resíduos é lançada no mar pelos emissários submarinos da Barra da Tijuca e de Ipanema. Esses sistemas realizam apenas tratamento preliminar, liberando moléculas que são absorvidas por invertebrados e peixes, integrando-se à cadeia alimentar.

O cenário brasileiro converge com achados internacionais. Em março de 2026, um estudo na revista *Environmental Pollution* identificou cafeína, cocaína e analgésicos no sangue de 28 dos 85 tubarões analisados próximos à ilha de Eleuthera, nas Bahamas. Pesquisadores brasileiros também detectaram opioides e antibióticos em tubarões, observando alterações fisiológicas que sugerem impactos na bioquímica dos animais.

Embora a detecção de sertralina no cérebro dos tubarões-martelo não permita afirmar, no momento, a existência de alterações comportamentais ou fisiológicas, a ciência já registrou efeitos em outras espécies. Em laboratório, zebrafish expostos a concentrações de 0,1 µg/L de sertralina — nível encontrado em águas costeiras — apresentaram retardo no aprendizado e hipolocomoção. O Projeto EcoShark busca agora compreender como esses compostos afetam os elasmobrânquios, que possuem neuroquímica distinta de peixes ósseos e mais próxima da de mamíferos.

O achado ocorre em um contexto de crescimento no consumo de psicotrópicos no Brasil. Entre 2022 e 2024, houve um aumento de 18,6% no uso de medicamentos para saúde mental. Especificamente entre adultos de 29 a 58 anos, o consumo de antidepressivos cresceu 12,4% entre 2023 e 2025, enquanto as vendas de estabilizadores de humor e antidepressivos subiram 11% em 2025 comparado ao ano anterior.

A investigação foi financiada pelo PIBIC-UFRJ, Capes e Faperj, com apoio de Leonardo Vazquez (FAPERJ/CNPQ). A execução do SubProjeto EcoShark, dentro do Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira, ocorreu como medida compensatória de um Termo de Ajustamento de Conduta da empresa PRIO, conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF/RJ), com financiamento de Mariana Batha Alonso via FUNBIO.

Notícias Relacionadas