Ciência

Estudo da Unesp indica que a creatina não possui efeito anti-inflamatório sistêmico em seres humanos

16 de Junho de 2026 às 09:22

Estudo da Unesp publicado na Frontiers in Immunology indica que a creatina não possui efeito anti-inflamatório sistêmico em humanos. A substância reduziu marcadores inflamatórios apenas em atletas submetidos a exercícios de resistência extremos. A análise confirmou a segurança do suplemento e manteve suas recomendações para ganho de força e massa magra

Estudo da Unesp indica que a creatina não possui efeito anti-inflamatório sistêmico em seres humanos
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Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) indica que a creatina não possui evidências consistentes de efeito anti-inflamatório em seres humanos. O estudo, publicado na revista *Frontiers in Immunology* com apoio da Fapesp, contestou a crença comum de que o suplemento reduziria marcadores inflamatórios de forma sistêmica, evidenciando que a reputação da substância nessa área baseia-se, em grande parte, em testes com células isoladas e animais, cujos resultados não se traduziram clinicamente para pessoas.

A análise, que utilizou oito ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos, demonstrou que a suplementação não promoveu reduções significativas em biomarcadores de inflamação crônica de baixo grau, como a interleucina-6 (IL-6) e a proteína C-reativa (PCR). O coordenador da pesquisa, Vitor Valenti, pontua que a substância não atua como um anti-inflamatório amplo, mas que seus benefícios podem estar restritos a contextos de estresse físico agudo e intenso.

Nesse cenário específico, a creatina mostrou-se eficaz para atletas submetidos a exercícios de resistência extremos, como triatletas em provas de meio Ironman e corredores de longa distância. Em protocolos onde foram administrados 20 gramas diários do suplemento por cinco dias antes das competições, houve redução de mediadores como PGE2, IL-1β e TNF-α. Em um dos casos analisados, corredores que percorreram 30 quilômetros apresentaram queda de 60,9% na PGE2 e de 33,7% no TNF-α. A hipótese é que a creatina preserve as fibras musculares e melhore a energia celular diante de grande dano muscular e estresse metabólico, reduzindo a liberação secundária de mediadores inflamatórios.

Contudo, esses efeitos não foram replicados em populações com inflamações crônicas, que possuem mecanismos biológicos mais complexos envolvendo estresse oxidativo e tecido adiposo. Pacientes com osteoartrite e idosos em treinamento de força não apresentaram alterações relevantes nos marcadores PCR, IL-6, TNF-α ou IL-1β, nem melhorias na recuperação muscular.

Os pesquisadores ressaltam que a inflamação aguda decorrente do exercício é necessária para a adaptação e o reparo muscular, e que a IL-6, por exemplo, auxilia na mobilização de energia e na sensibilidade à insulina. Portanto, a redução indiscriminada dessa resposta nem sempre seria benéfica.

Quanto à segurança, a revisão confirmou que a creatina é bem tolerada, inclusive em doses elevadas. Não foram registrados eventos adversos como desidratação, cãibras, diarreia ou desconforto gastrointestinal em atletas, idosos ou pacientes clínicos.

Apesar das conclusões, o estudo apresenta limitações devido ao pequeno número de participantes — como amostras de apenas 11 triatletas e 18 pacientes com osteoartrite — e à heterogeneidade de doses e protocolos, o que torna a certeza das evidências baixa.

Os autores enfatizam que os achados não alteram as recomendações de uso da creatina, que permanece reconhecida por seus efeitos ergogênicos no aumento da massa magra, da força e da performance em alta intensidade. A orientação é que a suplementação não substitua tratamentos médicos ou dietas em pessoas com doenças inflamatórias, mantendo-se a indicação para idosos focada na funcionalidade e força muscular, e não na redução da inflamação sistêmica.

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