Ciência

Estudo da USP indica que estrelas gêmeas apresentam diferenças químicas devido à absorção de planetas rochosos

16 de Junho de 2026 às 12:13

Astrônomos da USP e de outros países identificaram que a diferença química entre as estrelas binárias HD 129171 e HD 129209 ocorreu devido à absorção de planetas rochosos pela primeira. A análise, publicada na Astronomy & Astrophysics, utilizou o espectrógrafo UVES do Very Large Telescope para detectar concentrações de berílio e lítio

Estudo da USP indica que estrelas gêmeas apresentam diferenças químicas devido à absorção de planetas rochosos
Anne Rathsam/Adobe Firefly

Uma pesquisa liderada por astrônomos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), em colaboração com cientistas da China, Itália, Polônia e Austrália, identificou a causa de disparidades químicas em sistemas estelares binários. O estudo, publicado na revista *Astronomy & Astrophysics*, revela que a diferença de composição entre estrelas "gêmeas" — que nasceram da mesma nuvem de gás e poeira e deveriam ser idênticas — é resultado da absorção de planetas rochosos.

A análise focou no par de estrelas HD 129171 e HD 129209. Os pesquisadores observaram que, enquanto a composição de elementos voláteis (gases) é semelhante em ambas, a estrela HD 129171 apresenta uma concentração maior de elementos refratários, que são os componentes sólidos fundamentais de planetas rochosos e de núcleos de planetas gigantes. O estudo constatou que a diferença entre as duas estrelas aumenta proporcionalmente ao caráter refratário do elemento analisado, indicando que a HD 129171 incorporou material rochoso externo.

O destaque da investigação foi a utilização do berílio e do lítio como indicadores. Como esses elementos não são produzidos no interior das estrelas, qualquer quantidade excedente indica a ingestão de material externo. Ambos são destruídos pelo calor do núcleo estelar, mas em ritmos diferentes: o lítio é consumido a 2,5 milhões de graus Celsius, enquanto o berílio resiste até 3,5 milhões de graus. Devido a essa maior estabilidade térmica, o berílio deixa um rastro mais duradouro, servindo como uma ferramenta técnica para identificar estrelas que devoraram planetas, superando a limitação de estudos anteriores que ignoravam esse elemento.

Para obter esses dados, a equipe utilizou o espectrógrafo UVES do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, no Chile. O instrumento decompõe a luz estelar para revelar a presença de cada elemento químico.

Embora a assinatura química confirme a ingestão de rochas, a técnica não permite distinguir se a estrela absorveu um único planeta grande ou múltiplos corpos menores, pois em estrelas com massa similar à do Sol esse material se mistura rapidamente. Sobre a cronologia do evento, a persistência do lítio e do berílio sugere que a absorção ocorreu em um período relativamente recente na escala astronômica.

A descoberta reforça a hipótese de que sistemas estelares podem ser instáveis, contrastando com a configuração do Sistema Solar, cujas órbitas são circulares e estáveis. Essa instabilidade tem implicações diretas na busca por vida extraterrestre, pois a evolução de formas complexas de vida exige a estabilidade de um planeta que não seja destruído por sua própria estrela ao longo de milhares de anos.

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