Ciência

Estudo do ESO indica que limite de satélites em órbita não deve ultrapassar 100 mil

02 de Julho de 2026 às 06:12

Estudo do Observatório Europeu Austral indica que o limite de satélites em órbita deve ser de 100 mil para preservar a astronomia óptica. Projeções apontam que mais de 1,7 milhão de dispositivos podem orbitar a Terra, motivando o envio de um informe do órgão à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos

Estudo do ESO indica que limite de satélites em órbita não deve ultrapassar 100 mil
F. Kamphues/ESO/M. Kornmesser

A expansão de megaconstelações de satélites representa uma ameaça existencial para a astronomia óptica, conforme aponta um estudo do Observatório Europeu Austral (ESO) publicado nesta quarta-feira (1º) na revista *Astronomy & Astrophysics*. A pesquisa, a primeira a mensurar o impacto de dispositivos de grande porte e alta luminosidade no clareamento do céu noturno, indica que o limite de satélites em órbita não deveria ultrapassar 100 mil para que a capacidade de observação do universo seja preservada.

Atualmente, a órbita terrestre já conta com 14 mil satélites, a maioria pertencente à rede Starlink, da SpaceX. No entanto, a projeção de crescimento é massiva: a empresa de Elon Musk planeja adicionar um milhão de novos dispositivos voltados para centros de dados espaciais. Somam-se a isso as constelações chinesas CTC-1 e CTC-2, além do projeto Cinnamon, da E-Space, que juntas acrescentariam centenas de milhares de unidades. Outro fator crítico é a Reflect Orbital, companhia americana que pretende lançar até 50 mil satélites semelhantes a espelhos até 2035, com o intuito de refletir a luz solar durante a noite.

No total, a estimativa é que mais de 1,7 milhão de satélites possam orbitar a Terra, saturando o campo de visão dos telescópios terrestres. O astrônomo Olivier Hainaut, autor do estudo, explica que a passagem desses objetos diante de um alvo observado cria esteiras luminosas que ocultam a imagem do espaço. No caso da Reflect Orbital, mesmo sem o direcionamento direto dos espelhos, a luz dispersa faria com que os satélites fossem vistos como milhares de Vênus no céu. O resultado seria a perda da pureza do céu noturno em locais remotos, como o deserto do Atacama, no Chile, o Saara, na África, ou a região de Auvergne, na França, assemelhando a visibilidade à de áreas urbanas.

Além do prejuízo científico, a poluição luminosa pode desregular relógios biológicos de seres vivos e ecossistemas, impactando a saúde e o meio ambiente. Há também a questão da qualidade do ar, prejudicada tanto nos lançamentos quanto na reentrada dos satélites na atmosfera ao fim de sua vida útil.

Diante desse cenário, o ESO, em parceria com a União Astronômica Internacional e a Royal Astronomical Society do Reino Unido, encaminhou um informe à Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos. O órgão é o responsável por analisar as autorizações de operação da SpaceX e da Reflect Orbital. Betty Kioko, responsável pelos assuntos institucionais do ESO, reforça que a regulação é urgente para mitigar a ameaça à astronomia.

Embora a comunidade científica não se oponha ao uso de satélites, a prioridade é estabelecer a coexistência. Hainaut menciona que há um diálogo produtivo com fabricantes, destacando o esforço da SpaceX para reduzir o impacto de seus equipamentos. Já a Reflect Orbital afirmou que mantém o diálogo com astrônomos e encomenda estudos independentes para avaliar os efeitos de sua tecnologia.

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