Estudo do MIT propõe método para detectar armas nucleares em órbita via sensores de nêutrons
Estudo publicado na revista Nature propõe a detecção de nêutrons para identificar armas nucleares em órbita e fiscalizar o Tratado do Espaço Exterior de 1967. A técnica do MIT utiliza a interação dos cinturões de Van Allen com materiais pesados para diferenciar satélites pacíficos de plataformas armadas. O método sugere o uso de satélites inspetores para monitorar ogivas termonucleares remotamente
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Um novo método técnico, detalhado em estudo publicado na revista *Nature* nesta quarta-feira (08), propõe a detecção de nêutrons para verificar a presença de armas nucleares em órbita, permitindo a fiscalização do Tratado do Espaço Exterior de 1967, que proíbe tais armamentos. A pesquisa, desenvolvida por Areg Danagoulian, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), estabelece a primeira base técnica concreta para a verificação do acordo internacional.
A técnica baseia-se na interação entre os cinturões de Van Allen — regiões do campo magnético terrestre que retêm prótons e elétrons de alta energia — e materiais pesados. Quando um próton dessas regiões colide com urânio, ocorre a liberação de nêutrons, gerando um sinal identificável à distância que diferencia satélites pacíficos de plataformas armadas.
Para a aplicação prática, o estudo sugere o uso de um satélite "inspetor" equipado com sensores capazes de isolar a origem desses nêutrons de outras radiações espaciais. Simulações indicam que, para identificar uma ogiva termonuclear com cerca de 95 quilos de urânio, o inspetor precisaria de aproximadamente uma semana de observação a uma distância de 4 quilômetros para atingir 99% de confiança nos dados. Esse tempo de detecção poderia ser reduzido para 15 horas caso fosse utilizada uma frota de dez satélites inspetores.
A necessidade de tal monitoramento é exemplificada pelo caso do Kosmos 2553, satélite russo lançado em fevereiro de 2022 a 2 mil quilômetros de altitude. Enquanto a Rússia descreve o equipamento como um sistema de radar para vigilância e sensoriamento remoto, autoridades dos Estados Unidos suspeitam que se trate de uma plataforma de testes para componentes nucleares de armas antissatélites. Até então, não havia um método comprovado para confirmar a natureza do equipamento remotamente.
O risco de detonações no espaço é fundamentado no histórico do teste americano Starfish Prime, em 1962. Na ocasião, a explosão de uma bomba de 1,4 megatonelada a 400 km de altitude injetou elétrons de alta energia no cinturão de Van Allen, resultando na destruição ou dano de um terço dos satélites em órbita baixa na época. O evento também causou apagões em postes de iluminação no Havaí devido a um pulso eletromagnético.
Atualmente, a vulnerabilidade é maior devido à densidade de satélites de internet, previsão do tempo, imageamento e comunicações militares em órbita baixa, a maioria sem blindagem contra picos de radiação. Uma detonação entre 10 e 20 quilotoneladas, em altitudes entre 120 km e 400 km, poderia inutilizar grande parte desses equipamentos em semanas ou meses.
Apesar da viabilidade baseada em princípios da física e tecnologias existentes, Danagoulian ressalta que a proposta é conceitual. O sistema ainda requer desenvolvimento de engenharia, incluindo testes de comportamento do detector em ambiente real e estratégias para lidar com satélites que tentem evitar a observação. O pesquisador observa ainda que, embora aproximações entre satélites de nações distintas já tenham ocorrido sem crises diplomáticas, a vigilância deliberada de um país sobre outro pode elevar as tensões internacionais.