Estudo documenta guerra civil entre chimpanzés selvagens com mais de 20 mortes em Uganda
Uma comunidade de chimpanzés em Ngogo, Uganda, dividiu-se socialmente, resultando em uma guerra civil com mais de 20 mortes entre 2018 e 2024. O conflito, detalhado na revista Science, envolveu 24 ataques após a fragmentação de um grupo de mais de 200 indivíduos

Uma comunidade de chimpanzés selvagens em Ngogo, Uganda, passou por um processo de divisão social que culminou em uma guerra civil com mais de 20 mortes, incluindo filhotes. O conflito, detalhado em estudo publicado na revista *Science*, resultou em 24 ataques registrados entre 2018 e 2024, transformando antigos companheiros em rivais letais.
A fragmentação do grupo, que contava com mais de 200 indivíduos, iniciou-se em 2015 por meio de uma polarização social gradual. Inicialmente, a comunidade se dividiu espacialmente: uma parte ocupou a região central do território e a outra se estabeleceu na área oeste. Durante esse período de transição, os animais ainda mantinham interações, realizando atividades de caça conjunta e relações sexuais.
A separação definitiva foi constatada pelos pesquisadores em 2018, após o enfraquecimento dos laços sociais. A ruptura tornou-se irreversível quando indivíduos que serviam como conexão entre os subgrupos morreram devido a doenças. A partir desse ponto, a dinâmica mudou drasticamente, e os chimpanzés passaram a realizar patrulhas nas novas fronteiras territoriais, o que intensificou a violência intergrupal e as mortes de machos adultos e bebês.
O fenômeno é considerado raro entre chimpanzés selvagens, sendo este apenas o segundo caso documentado em 50 anos, depois do registro feito por Jane Goodall em Gombe, na Tanzânia. A reconstrução desse comportamento foi possível graças ao acompanhamento da comunidade de Ngogo há três décadas, utilizando a combinação de dados genéticos, observações de campo e GPS.
A análise indica que a violência não deve ser atribuída apenas aos machos, que lideram as patrulhas. As fêmeas exercem influência fundamental na estrutura social, impactando a dinâmica do grupo por meio de estratégias reprodutivas, relações sociais complexas e decisões sobre a seleção de alimentos e o uso do espaço.
O estudo estabelece ainda um contraste com o comportamento dos bonobos. Embora possuam proximidade evolutiva semelhante com os seres humanos, os bonobos mantêm associações mais tolerantes entre grupos e não apresentam conflitos letais após processos de divisão.