Estudo identifica 85 novos lagos subglaciais ativos na Antártida por meio de dados de satélite
Estudo publicado na Nature Communications identificou 85 novos lagos subglaciais ativos na Antártida, totalizando 231 reservatórios no continente. A pesquisa utilizou dados do satélite CryoSat-2 entre 2010 e 2020, mapeando 73 lagos na Antártida Oriental e 12 na Ocidental

A identificação de 85 novos lagos subglaciais ativos na Antártida elevou para 231 o número de reservatórios desse tipo conhecidos no continente. O estudo, publicado em setembro de 2025 na revista *Nature Communications*, baseou-se em dados coletados entre 2010 e 2020 pelo satélite CryoSat-2, da Agência Espacial Europeia, que utiliza um altímetro de radar para monitorar a espessura do gelo polar e variações de altitude em massas glaciais.
A detecção ocorreu por meio da análise de oscilações discretas na superfície do gelo. Como a camada congelada sobe quando um lago subglacial é preenchido e desce quando a água drena, a comparação desses movimentos ao longo de uma década permitiu mapear os ciclos de enchimento e esvaziamento de áreas inacessíveis por métodos convencionais.
Esses lagos formam-se pelo acúmulo de água de degelo entre o gelo e o leito rochoso, processo impulsionado pelo atrito do deslocamento da massa gelada e pelo calor geotérmico proveniente do interior da Terra. A pesquisa revelou que a hidrologia subglacial é mais dinâmica do que se imaginava, identificando cinco redes interligadas e 25 agrupamentos de lagos. Em certas regiões, a drenagem em um ponto e o preenchimento em outro indicam a existência de caminhos de circulação de água ainda pouco conhecidos.
Quanto à distribuição geográfica, 73 dos novos lagos ativos situam-se na Antártida Oriental e 12 na Antártida Ocidental, ampliando significativamente o registro de atividade no leste do continente. O estudo também destacou a presença de seis lagos localizados a até 8 quilômetros da linha de aterramento, zona onde a geleira deixa de tocar a rocha e passa a flutuar sobre o oceano, dado relevante para a compreensão do fluxo de gelo e do derretimento basal.
No período analisado, foram registrados 37 eventos completos de drenagem e 34 de preenchimento. O levantamento acrescentou 12 ciclos completos de enchimento e drenagem ao inventário global, que passou de 36 para 48 registros mundiais. A mediana de tempo para a conclusão de uma drenagem foi de 2,2 anos, enquanto o preenchimento levou, em média, 3,5 anos.
A dinâmica desses reservatórios influencia o comportamento das geleiras, pois a água na base da camada de gelo pode reduzir o atrito com o solo rochoso, facilitando o deslizamento da massa em direção ao mar. Sally Wilson, pesquisadora da Universidade de Leeds e autora principal do estudo, pontuou que o mapeamento da atividade desses lagos é fundamental para aprimorar modelos de estimativa da elevação do nível do mar, que ainda não incorporam plenamente a hidrologia subglacial.
O estudo diferencia os lagos ativos daqueles considerados estáveis, que não apresentam ciclos de esvaziamento e preenchimento. Um exemplo de lago estável é o Vostok, localizado na Antártida Oriental sob cerca de 4 quilômetros de gelo, com volume estimado entre 5.000 e 65.000 quilômetros cúbicos de água.
Para os pesquisadores, a utilização de dados orbitais é a ferramenta central para monitorar processos que ocorrem sob centenas de metros de gelo sem a necessidade de perfurações diretas. A continuidade dessas observações é necessária para preencher lacunas sobre a frequência dos ciclos e os fatores que iniciam os eventos de drenagem, permitindo entender a interação entre gelo, rocha, água e oceano.