Estudo identifica novos vazamentos de gases e fluidos no fundo do mar da Antártida
Hidratos de metano, concentrados em permafrost e oceanos profundos, são alvo de testes de extração de gás natural por países como Japão, China e Estados Unidos. A viabilidade comercial depende de técnicas de despressurização em camadas arenosas, enquanto estudos monitoram riscos geológicos e impactos climáticos. Pesquisas recentes na Antártida identificaram novos vazamentos de gases e fluidos no fundo marinho do Mar de Ross

Os hidratos de metano, estruturas cristalinas conhecidas como "gelo de fogo", concentram grandes volumes de gás natural em sedimentos de permafrost e regiões profundas do oceano. Esses clatratos formam-se quando moléculas de água criam uma gaiola física ao redor do metano, um arranjo mantido por condições rigorosas de baixa temperatura e alta pressão, sem que ocorra uma ligação química entre os elementos.
A formação dessa substância está vinculada à decomposição de matéria orgânica soterrada, processada por microrganismos que transformam o material em gás. Este migra pelos poros da lama submarina até encontrar zonas estáveis, geralmente em margens continentais a partir de 500 metros de profundidade, conforme dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos. A principal característica do material é a alta compactação: a desestruturação de um pequeno volume sólido em condições de superfície pode liberar entre 164 e 180 volumes de gás.
Devido a esse potencial, países com baixa produção de gás natural investem em testes de extração. O Japão realizou a primeira produção offshore no talude de Nankai em 2013, extraindo 119,5 mil metros cúbicos de gás em seis dias. A China conduziu experimentos no Mar do Sul da China em 2017 e 2020, enquanto uma cooperação entre Estados Unidos e Japão desenvolveu testes de longa duração no norte do Alasca.
A viabilidade comercial, contudo, enfrenta barreiras técnicas. Depósitos em sistemas fraturados ou ricos em argila são menos favoráveis, levando a indústria a priorizar camadas arenosas. Nesses locais, utiliza-se a despressurização do reservatório para provocar a dissociação do hidrato e a liberação do gás.
Paralelamente ao interesse energético, os hidratos são monitorados por seu impacto climático. O metano é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento estimado entre 27 e 30 vezes superior ao do dióxido de carbono em um ciclo de 100 anos. Embora exista a "Hipótese da Arma de Clatratos" — que sugere que a desestabilização rápida desses depósitos poderia acelerar o aquecimento global —, a literatura científica atual é cautelosa. O Serviço Geológico dos Estados Unidos indica que, apesar de o aquecimento dos oceanos degradar hidratos em certas áreas, a emissão massiva de metano diretamente para a atmosfera é improvável, pois parte do gás é retida nos sedimentos, dissolvida na água ou consumida por microrganismos.
Recentemente, a atenção voltou-se para o Mar de Ross, na Antártida. Um estudo publicado na revista Nature Communications identificou diversos vazamentos de gases e fluidos no fundo marinho costeiro, inclusive em locais que não apresentavam tal atividade em monitoramentos de décadas anteriores. Embora a origem desses vazamentos não tenha sido definida, a descoberta ressalta a necessidade de investigar a influência de mudanças na criosfera, lembrando que a liberação submarina nem sempre resulta em emissão atmosférica imediata.
A análise desses fenômenos exige o uso de navios oceanográficos, sensores acústicos, veículos remotos e perfurações científicas. O sonar é utilizado para detectar plumas de gás, enquanto amostragens sob pressão preservam a estrutura dos cristais. Além do clima, a pesquisa avalia riscos geológicos, já que a liberação de gás sob pressão pode reduzir a resistência dos sedimentos e causar deslizamentos submarinos, ameaçando dutos, plataformas, cabos e ecossistemas profundos.
Para a indústria energética, o desafio reside em extrair o recurso sem causar instabilidades no fundo do mar, vazamentos descontrolados ou danos climáticos. A segurança e a viabilidade econômica de tecnologias de monitoramento térmico, controle de areia e gestão de pressão ainda dependem de validações que transcendam a fase de testes experimentais.