Estudo indica que 10% dos pacientes com câncer de mama, próstata ou intestino possuem mutações hereditárias
Estudo do Mapa Genoma Brasil identificou mutações hereditárias em 10% de 275 pacientes com câncer de mama, próstata ou intestino. A pesquisa, publicada na The Lancet Regional Health – Americas, constatou que quase 40% dos parentes desses pacientes também possuem alterações genéticas. Os dados fundamentam a análise do Ministério da Saúde sobre a inclusão de testes e protocolos específicos no SUS
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/s/h/wqazSbQzu51AljXcTotw/adobestock-143340070.jpeg)
O maior estudo genômico sobre câncer realizado no Brasil identificou que 10% dos pacientes com tumores de mama, próstata ou intestino apresentam mutações hereditárias. A pesquisa, publicada no periódico *The Lancet Regional Health – Americas*, sequenciou o genoma completo de 275 pessoas atendidas em hospitais públicos de todas as cinco regiões do país. O trabalho integra o Mapa Genoma Brasil, iniciativa do Ministério da Saúde coordenada pelo Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e financiada pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS).
A detecção dessas falhas no DNA impacta diretamente a escolha terapêutica. Pacientes com câncer de mama que possuem mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 podem ser tratados com inibidores de PARP, medicamentos específicos para esse defeito genético. No caso do câncer de intestino, mutações nos genes PMS2, MSH6 ou MLH1 costumam gerar tumores com instabilidade de microssatélites, o que indica a eficácia da imunoterapia para ativar o sistema imunológico contra a doença.
O estudo revelou que a predisposição genética se estende aos familiares: quase 40% dos parentes de pacientes com mutações, que aceitaram realizar o teste, também carregavam a alteração no DNA, mesmo sem ter desenvolvido a doença. Esse dado permite a implementação de protocolos preventivos. Pessoas com mutações no gene BRCA1, por exemplo, enfrentam riscos de até 85% para câncer de mama e 60% para câncer de ovário, demandando ressonâncias magnéticas anuais a partir dos 25 anos ou cirurgias preventivas. Já a Síndrome de Lynch, ligada a mutações como a do gene MLH1, eleva o risco de câncer de intestino para 80%, exigindo colonoscopias frequentes e precoces.
A pesquisa também detectou a mutação TP53 R337H, associada à Síndrome de Li-Fraumeni, que confere mais de 90% de chance de desenvolver algum câncer ao longo da vida e requer vigilância multidisciplinar com ressonância de corpo inteiro anualmente. Essa variante específica possui forte incidência no Brasil, especialmente no Sul e Sudeste, tendo se disseminado a partir de um ancestral comum há cerca de 300 anos. Estima-se que a alteração atinja uma a cada 300 pessoas em certas regiões brasileiras, frequência superior à de outros países.
Os dados evidenciam a necessidade de ampliar o rastreamento genético nacional, especialmente porque a maioria dos bancos de dados globais é baseada em populações europeias. Como 59% dos participantes do estudo se declararam pardos, a miscigenação brasileira resulta em "variantes de significado incerto", dificultando a interpretação de alterações genéticas por falta de dados comparativos de populações semelhantes.
Atualmente, a infraestrutura de sequenciamento e aconselhamento genético utilizada no estudo não está disponível na maioria dos hospitais públicos. Como alternativa para expandir o acesso, propõe-se a aplicação de questionários de histórico familiar por enfermeiros treinados para identificar pacientes com maior probabilidade de mutações, encaminhando-os a centros de referência. O estudo segue em seu segundo ciclo e servirá de base para que o Ministério da Saúde analise a inclusão de testes genéticos e protocolos de cuidado específicos no SUS.