Ciência

Estudo indica que cefalópodes desenvolveram cérebros complexos independentemente de interações sociais

12 de Julho de 2026 às 09:11

Estudo publicado na revista iScience indica que cefalópodes desenvolveram cérebros proporcionalmente grandes devido a pressões ambientais, e não por interações sociais. A pesquisa com 79 espécies revela que a complexidade cognitiva desses animais está ligada à capacidade de aprendizado e processamento de informações do ecossistema marinho

Estudo indica que cefalópodes desenvolveram cérebros complexos independentemente de interações sociais
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A evolução da inteligência animal apresenta caminhos distintos do que se acreditava anteriormente, conforme indica um estudo publicado na revista *iScience*. A pesquisa revela que cefalópodes, como polvos, lulas e sépias, desenvolveram cérebros proporcionalmente grandes mesmo sendo, em geral, criaturas solitárias. Esse achado confronta a hipótese do cérebro social, teoria que sustenta que a complexidade cognitiva evolui prioritariamente em espécies com interações sociais intensas, como ocorre com primatas, golfinhos, baleias, lobos e leões.

Diferente dos mamíferos citados, os cefalópodes não formam comunidades estáveis nem mantêm cuidados prolongados com a prole. Muitas dessas espécies apresentam comportamentos agressivos entre indivíduos da mesma espécie e possuem ciclos de vida curtos, com a morte ocorrendo logo após a reprodução. Apesar disso, esses animais demonstram alta capacidade de resolver problemas, explorar ambientes variáveis, caçar presas diversas e operar seus corpos flexíveis com precisão superior a outros invertebrados.

Para chegar a essas conclusões, pesquisadores analisaram dados de 79 espécies de cefalópodes, cruzando a dimensão cerebral com variáveis de ecologia, habitat, comportamento e socialidade. Os dados indicam que a pressão evolutiva para o desenvolvimento de cérebros maiores estaria ligada ao ambiente, e não à vida em grupo. Espécies que habitam o fundo do mar e águas menos profundas tendem a possuir cérebros proporcionalmente maiores.

Essa descoberta se alinha à hipótese do cérebro cultural, que propõe que a seleção de cérebros mais complexos pode ocorrer pela capacidade de processar informações adquiridas via aprendizado, seja ele social ou não. Nesse cenário, ambientes ricos em refúgios, obstáculos mutáveis e diversidade de presas favorecem animais com maior capacidade de aprendizado.

O exemplo mais nítido desse processo ocorre com os polvos bentônicos, que vivem próximos ao fundo oceânico. A anatomia desses animais permite a entrada em fendas, a coordenação independente dos braços e a adaptação da postura, exigindo o processamento rápido de informações ambientais e a memorização de locais úteis para a sobrevivência, independentemente de qualquer estrutura social.

Michael Muthukrishna, da London School of Economics and Political Science, e Jennifer Mather, da University of Lethbridge, destacam que a inteligência animal não seguiu uma rota evolutiva única. Embora a vida social tenha impulsionado o crescimento cerebral em diversas linhagens, o caso dos cefalópodes prova que a complexidade cognitiva também pode emergir de forma isolada, respondendo a demandas específicas do ecossistema marinho.

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