Ciência

Estudo indica que cerca de 20% dos brasileiros já vivenciaram a sensação de viagem astral

24 de Maio de 2026 às 06:09

Estudo publicado na revista Nature Communications Psychology indica que até 20% dos brasileiros relataram experiências de saída do corpo. A pesquisa com mais de 11 mil participantes revelou que entre 97,57% e 99,5% dos entrevistados vivenciaram ao menos um evento não ordinário. O trabalho analisou como a metodologia de coleta de dados e o contexto clínico influenciam o relato dessas vivências

Estudo indica que cerca de 20% dos brasileiros já vivenciaram a sensação de viagem astral
Adobe Stock

Cerca de 20% dos brasileiros afirmam já ter vivenciado a sensação de sair do próprio corpo físico, fenômeno popularmente chamado de "viagem astral". O dado integra um estudo publicado na revista *Nature Communications Psychology*, conduzido por cientistas com apoio do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e da iniciativa IDOR Ciência Pioneira.

A pesquisa, que analisou respostas de mais de 11 mil participantes em seis estudos distintos, revelou que as chamadas "experiências não ordinárias" são amplamente disseminadas na população: entre 97,57% e 99,5% dos entrevistados relataram ter passado por ao menos um evento desse tipo. Além da saída do corpo, a maioria dos brasileiros já experimentou déjà vu, sonhos lúcidos, a percepção de presenças invisíveis ou a audição de vozes sem fonte aparente.

No caso específico da viagem astral, descrita como a percepção da consciência separada do corpo físico, a prevalência ficou entre 13% e 20%, faixa em que também se enquadram relatos de luzes anômalas ou a visão de objetos animados.

Um dos eixos centrais do trabalho é o "paradoxo da prevalência", que demonstra como a metodologia de coleta de dados influencia drasticamente os resultados. Os pesquisadores observaram que a forma de perguntar e o contexto da pesquisa alteram a disposição do participante em relatar vivências subjetivas.

Para testar essa hipótese, os cientistas dividiram os voluntários em grupos. Aqueles que responderam a questionários sobre saúde mental, ansiedade e depressão antes do inventário de experiências não ordinárias relataram significativamente menos episódios. O estudo sugere que o enquadramento clínico desperta o autoestigma e o medo do julgamento, levando as pessoas a omitirem tais relatos.

A estrutura da pergunta também se mostrou decisiva. O uso de escalas de frequência (indicando quantas vezes o evento ocorreu) aumentou em mais de quatro vezes a probabilidade de respostas afirmativas em comparação a perguntas binárias de "sim" ou "não". Segundo Ronald Fischer, autor principal do estudo, escalas graduais transmitem a ideia de que a experiência é comum, enquanto perguntas fechadas tendem a gerar prevalências menores.

Quanto à frequência dos fenômenos, o déjà vu foi o mais relatado. Também apresentaram alta incidência sentimentos intensos de amor, alegria, compaixão profunda, sonhos lúcidos e a absorção cognitiva, que é a perda da noção do tempo durante atividades específicas. Outras percepções registraram as seguintes prevalências:

- Presença invisível: 30% a 57%

- Sensação de ser tocado: 30% a 48%

- Sensação de ser guiado por uma força: 27% a 55%

- Percepção extrassensorial: 41% a 55%

A análise propõe que essas vivências não sejam automaticamente interpretadas como sinais clínicos, fenômenos espirituais ou paranormais. Os autores argumentam que, embora muitos desses episódios constem em manuais de psicose ou esquizofrenia, a alta frequência na população geral indica que eles não são inerentemente patológicos. Para a ciência, a interpretação clínica só seria cabível se a experiência viesse acompanhada de prejuízo funcional, sofrimento psicológico ou comprometimento do bem-estar.

A professora Bárbara Pires, da pós-graduação em Neurociências Aplicadas da UFRJ, relata vivências recorrentes de deslocamento da consciência, ocorrendo em média uma vez por semana, muitas vezes associadas a contextos de segurança emocional e compaixão. Pires defende que a investigação desses fenômenos deve permanecer aberta a modelos neurobiológicos, psicológicos e fenomenológicos, evitando reducionismos.

O objetivo final do estudo é reduzir o estigma e compreender como as pessoas percebem e descrevem essas experiências subjetivas, integrando relatos pessoais a métodos científicos para aprofundar o conhecimento sobre a memória, a percepção e a consciência humana.

Notícias Relacionadas