Ciência

Estudo indica que derretimento de gelo na Antártida altera a circulação oceânica e acelera a perda glacial

23 de Maio de 2026 às 09:04

Estudo publicado na Nature Geoscience indica que o degelo de plataformas na Antártida altera a circulação oceânica e acelera a perda de massa glacial. A água doce liberada reduz a salinidade e a densidade do oceano, facilitando a chegada de águas quentes à base do gelo. O mecanismo é responsável por dois terços do aumento da taxa de derretimento nas simulações

Estudo indica que derretimento de gelo na Antártida altera a circulação oceânica e acelera a perda glacial
Estudo mostra que água de degelo pode alterar a circulação oceânica e acelerar o derretimento basal na Antártida.

Um estudo publicado em 15 de maio de 2026 na Nature Geoscience identificou que o derretimento das plataformas de gelo na Antártida desencadeia um ciclo de retroalimentação que altera a circulação oceânica, acelerando a perda de massa glacial. A pesquisa, liderada por Madeleine K. Youngs, demonstra que a água doce liberada pelo degelo modifica a densidade e a salinidade do oceano, permitindo que águas profundas mais quentes alcancem a base das plataformas e intensifiquem o derretimento basal.

Esse mecanismo de feedback positivo é responsável por dois terços do aumento da taxa de derretimento em todas as plataformas de gelo simuladas no estudo. A dinâmica ocorre porque, em certas regiões, águas frias e densas funcionam como uma barreira natural contra o calor. Quando o gelo derrete, a água doce dilui essa camada, enfraquecendo a proteção e facilitando a entrada de calor sob as estruturas de gelo.

A análise utilizou um modelo circumpolar do oceano Antártico com plataformas interativas para observar como o sistema reage internamente, em vez de tratar o derretimento apenas como uma resposta passiva ao aquecimento externo. O estudo revela que esse processo não é uniforme: enquanto no Mar de Weddell o ciclo pode amplificar o derretimento, em áreas como o Mar de Amundsen e a Península Antártica Ocidental, a água doce pode criar barreiras frias temporárias. No entanto, Youngs ressalta que esse efeito protetor local depende de derretimentos intensos em setores vizinhos.

A descoberta impacta a precisão dos modelos climáticos globais. Atualmente, projeções internacionais, incluindo as do IPCC, tendem a tratar o derretimento como uma variável fixa. Ao não considerar a interação dinâmica onde o gelo derretido remodela o oceano que causará o próximo degelo, tais modelos podem subestimar a aceleração da perda de massa glacial.

A instabilidade das plataformas de gelo é crítica porque elas exercem a função de sustentação (*buttressing*), segurando as geleiras continentais. Embora o derretimento do gelo flutuante não eleve o nível do mar diretamente, o enfraquecimento dessas estruturas permite que mais gelo terrestre avance para o oceano. Esse risco é corroborado por dados anteriores da NASA, publicados na revista Science, que atribuíram 55% da perda de massa das plataformas antárticas entre 2003 e 2008 ao derretimento basal.

A University of Maryland alerta que a manutenção de trajetórias elevadas de emissões pode antecipar a chegada de um ponto de inflexão climática. A urgência do cenário reflete-se na vulnerabilidade de mais de 680 milhões de pessoas em zonas costeiras baixas. De acordo com estimativas do IPCC, a Antártida pode adicionar entre 28 e 34 centímetros à elevação do nível do mar até 2100 em cenários de altas emissões, contribuindo para uma subida global que pode variar de 0,63 metro a 1,01 metro no mesmo período, considerando também a expansão térmica e outras fontes de gelo.

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