Ciência

Estudo indica que pessoas ricas com valores ecológicos podem ter emissões de carbono mais elevadas

29 de Maio de 2026 às 15:15

Pesquisa com 5 mil pessoas de seis países indica que indivíduos de maior renda e escolaridade podem ter emissões de carbono superiores, apesar de valorizarem o discurso ecológico. O estudo aponta que o uso frequente de aviões anula práticas sustentáveis nesse grupo socioeconômico

Estudo indica que pessoas ricas com valores ecológicos podem ter emissões de carbono mais elevadas
Pessoas ricas com ideais ambientais são as maiores emissoras, aponta estudo com 5 mil participantes em 6 países

Um estudo recente revelou que a valorização do discurso ecológico não garante, necessariamente, a redução da pegada ambiental, especialmente entre as classes sociais mais elevadas. A pesquisa demonstrou que, em grupos com maior renda, escolaridade e prestígio profissional, as pessoas mais alinhadas a valores ambientais podem apresentar emissões de carbono superiores às de seus pares.

O levantamento foi realizado com 5 mil participantes de seis países: Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. Para a análise, os pesquisadores cruzaram dados de status socioeconômico e percepções sobre clima, natureza e desperdício com indicadores concretos de impacto, como o tamanho da residência, a geração de resíduos, o uso de veículos e o consumo de laticínios e carnes.

Embora a maioria dos entrevistados tenha apresentado a tendência esperada — onde a preocupação com a preservação resulta em menor impacto ambiental —, esse padrão foi invertido entre os 30% mais ricos e escolarizados. Nesse estrato, a pegada ecológica foi ampliada principalmente pelo uso frequente de aviões, modal de transporte com alta intensidade de emissões por pessoa. O estudo indica que a frequência de voos anula os efeitos de práticas sustentáveis de menor escala, como a reciclagem.

Os resultados contestam a curva de Kuznets ambiental, hipótese que prevê a diminuição da pressão sobre o meio ambiente após a riqueza atingir determinado nível. Os autores do trabalho afirmam que essa leitura não se sustenta quando a análise é aplicada a indivíduos em vez de nações.

Malte Dewies, pesquisador da Universidade de Cambridge e um dos autores do estudo, pontua que a dificuldade em encontrar alternativas de baixo carbono para atividades como voar limita a mudança de comportamento, mesmo para quem deseja reduzir seu impacto. Nesse sentido, Micha Kaiser, também de Cambridge, argumenta que a dependência de campanhas voltadas à atitude individual é insuficiente para resolver o problema, sendo necessária a implementação de medidas mais rigorosas.

A análise ocorre enquanto governos de países como Alemanha e Reino Unido aplicam taxas mais altas sobre a aviação. No entanto, a equipe de pesquisa avalia que esses reajustes tarifários recentes não são capazes de desestimular as viagens de passageiros de alta renda.

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