Estudo indica que pessoas ricas com valores ecológicos podem ter emissões de carbono mais elevadas
Pesquisa com 5 mil pessoas de seis países indica que indivíduos de maior renda e escolaridade podem ter emissões de carbono superiores, apesar de valorizarem o discurso ecológico. O estudo aponta que o uso frequente de aviões anula práticas sustentáveis nesse grupo socioeconômico

Um estudo recente revelou que a valorização do discurso ecológico não garante, necessariamente, a redução da pegada ambiental, especialmente entre as classes sociais mais elevadas. A pesquisa demonstrou que, em grupos com maior renda, escolaridade e prestígio profissional, as pessoas mais alinhadas a valores ambientais podem apresentar emissões de carbono superiores às de seus pares.
O levantamento foi realizado com 5 mil participantes de seis países: Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. Para a análise, os pesquisadores cruzaram dados de status socioeconômico e percepções sobre clima, natureza e desperdício com indicadores concretos de impacto, como o tamanho da residência, a geração de resíduos, o uso de veículos e o consumo de laticínios e carnes.
Embora a maioria dos entrevistados tenha apresentado a tendência esperada — onde a preocupação com a preservação resulta em menor impacto ambiental —, esse padrão foi invertido entre os 30% mais ricos e escolarizados. Nesse estrato, a pegada ecológica foi ampliada principalmente pelo uso frequente de aviões, modal de transporte com alta intensidade de emissões por pessoa. O estudo indica que a frequência de voos anula os efeitos de práticas sustentáveis de menor escala, como a reciclagem.
Os resultados contestam a curva de Kuznets ambiental, hipótese que prevê a diminuição da pressão sobre o meio ambiente após a riqueza atingir determinado nível. Os autores do trabalho afirmam que essa leitura não se sustenta quando a análise é aplicada a indivíduos em vez de nações.
Malte Dewies, pesquisador da Universidade de Cambridge e um dos autores do estudo, pontua que a dificuldade em encontrar alternativas de baixo carbono para atividades como voar limita a mudança de comportamento, mesmo para quem deseja reduzir seu impacto. Nesse sentido, Micha Kaiser, também de Cambridge, argumenta que a dependência de campanhas voltadas à atitude individual é insuficiente para resolver o problema, sendo necessária a implementação de medidas mais rigorosas.
A análise ocorre enquanto governos de países como Alemanha e Reino Unido aplicam taxas mais altas sobre a aviação. No entanto, a equipe de pesquisa avalia que esses reajustes tarifários recentes não são capazes de desestimular as viagens de passageiros de alta renda.