Ciência

Estudo japonês identifica bactéria no útero que favorece o desenvolvimento da endometriose

22 de Maio de 2026 às 06:20

Pesquisadores de Nagoya identificaram a bactéria Fusobacterium nucleatum no revestimento uterino de 64,3% das mulheres com endometriose e em 52,4% das lesões ovarianas. O estudo, publicado na Science Translational Medicine, associou o microrganismo ao aumento da proteína TAGLN e a respostas inflamatórias que impulsionam a doença. Testes em camundongos mostraram que o uso de antibióticos eliminou a bactéria e reduziu as lesões

Estudo japonês identifica bactéria no útero que favorece o desenvolvimento da endometriose
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A presença da bactéria *Fusobacterium nucleatum* no revestimento uterino foi identificada em 64,3% das mulheres com endometriose, conforme estudo conduzido por pesquisadores da faculdade de medicina de Nagoya, no Japão. O índice é significativamente superior ao observado em mulheres sem a condição, nas quais o microrganismo foi encontrado em apenas 7,1% dos casos. A análise também detectou a bactéria em 52,4% das lesões endometrióticas ovarianas.

A investigação, publicada na revista *Science Translational Medicine*, indica que a infecção por esse microrganismo altera o microambiente do endométrio, desencadeando uma resposta inflamatória que favorece o crescimento da doença. O processo ocorre por meio da ativação da via de sinalização do TGF-β1, molécula ligada à fibrose e inflamação, que transforma fibroblastos quiescentes em miofibroblastos positivos para a proteína TAGLN.

A proteína TAGLN, associada a processos de cicatrização e inflamação crônica, apresentou níveis elevados nas lesões ovarianas e níveis intermediários no endométrio de pacientes com a doença, sendo menor em mulheres saudáveis. Testes laboratoriais comprovaram que o aumento dessa proteína amplia a capacidade de proliferação, migração e adesão das células, fatores que impulsionam a progressão da endometriose. Quando os níveis de TAGLN foram reduzidos artificialmente, houve a diminuição da migração e proliferação celular.

O estudo também observou a produção aumentada de IL-6, uma citocina inflamatória, e a presença de macrófagos do tipo M2, produtores de TGF-β1, nos tecidos das pacientes. Notavelmente, mesmo bactérias mortas de *Fusobacterium nucleatum* foram capazes de estimular a produção de TGF-β1.

Em modelos experimentais com camundongos, a infecção por *Fusobacterium nucleatum* resultou em lesões endometrióticas maiores, mais pesadas, com maior infiltração inflamatória e aumento de células TAGLN-positivas. Outros microrganismos, como *Escherichia coli* e *Lactobacillus iners*, não provocaram tais efeitos. A administração dos antibióticos cloranfenicol e metronidazol nos animais eliminou a bactéria, reduziu a inflamação e a expressão de TAGLN, além de diminuir o número e o peso das lesões, mesmo quando o tratamento foi iniciado após o desenvolvimento da doença.

A *Fusobacterium nucleatum* habita naturalmente a cavidade oral, mas pode se disseminar para outras regiões do corpo, atuando como um patógeno oportunista associado a diversas doenças sistêmicas, incluindo o câncer colorretal. A colonização no endométrio pode ocorrer de forma assintomática ou subclínica, sendo favorecida por infecções intrauterinas, complicações obstétricas ou a própria endometriose. O uso inadequado ou prolongado de antibióticos é apontado como um risco, pois pode alterar o ecossistema microbiano e a microbiota intestinal protetora, tornando as cepas bacterianas menos sensíveis ao tratamento.

A endometriose, que atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, caracteriza-se pelo crescimento de tecido semelhante ao revestimento uterino fora da cavidade do útero, podendo causar infertilidade, alterações menstruais e dores pélvicas intensas. Devido à variação dos sintomas e à dependência de cirurgias para a confirmação diagnóstica, a busca por marcadores menos invasivos é prioridade científica. Os autores do estudo concluem que a eliminação da bactéria pode se tornar uma estratégia terapêutica futura para o controle da doença.

Com informações de G1

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