Ciência

Estudo revela que a maioria dos mapas de risco costeiro subestimou a vulnerabilidade de regiões

22 de Maio de 2026 às 15:08

Estudo da revista Nature aponta que mais de 90% dos mapas de risco costeiro subestimaram a vulnerabilidade regional ao usar modelos teóricos em vez de medições físicas. A falha metodológica resultou em níveis do mar globalmente superiores entre 0,24 e 0,27 metro ao valor assumido. A correção amplia em 37% a área inundável e eleva em 68% o número de pessoas expostas em cenários de elevação de 1 metro

Estudo revela que a maioria dos mapas de risco costeiro subestimou a vulnerabilidade de regiões
Estudo da Nature revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível do mar nas costas, colocando até 132 milhões de pessoas a mais em risco.

Um estudo publicado na revista Nature em março de 2026 revelou que a maioria dos mapas de risco costeiro utilizados globalmente subestimou a vulnerabilidade de diversas regiões devido a uma falha metodológica persistente. A pesquisa, conduzida por Katharina Seeger, da Universidade de Colônia, e Philip Minderhoud, da Universidade de Wageningen e do instituto Deltares, analisou 385 trabalhos científicos sobre exposição costeira publicados entre 2009 e 2025. A conclusão indica que mais de 90% dessas avaliações ignoraram o nível real do mar, baseando-se em modelos teóricos.

O erro central reside na substituição de medições físicas diretas — obtidas por boias e mareógrafos — pelo uso do geoide, um modelo matemático baseado na rotação da Terra e na gravidade. Como o geoide é uma superfície idealizada, ele não considera variáveis reais como salinidade, temperatura, correntes marinhas, marés astronômicas e ventos. Essa escolha técnica resultou em cálculos iniciados a partir de uma base inferior à realidade física do oceano.

Globalmente, o nível do mar medido nas costas é entre 0,24 e 0,27 metro superior ao valor assumido pelos modelos teóricos. Em casos isolados, a discrepância atingiu entre 5,5 e 7,6 metros. A falha ocorreu porque a topografia (altitude do terreno) e a oceanografia física (comportamento das águas) operam com sistemas de referência vertical distintos, coletados por satélites diferentes, e a conversão necessária para integrar esses dados não foi realizada adequadamente. A falta de transparência na documentação dessas pesquisas permitiu que o erro fosse replicado por mais de uma década.

O impacto dessa correção é severo em cenários de elevação relativa do mar de 1 metro: a área inundável aumenta em 37% e o número de pessoas expostas cresce 68%, adicionando até 132 milhões de indivíduos ao grupo de risco.

A disparidade nos dados é mais acentuada no Sul Global. Enquanto nações desenvolvidas da Europa e do Atlântico possuem monitoramento avançado e menores divergências, regiões do Indo-Pacífico e Sudeste Asiático registraram diferenças de 1 a 1,5 metro acima das bases anteriores. A América Latina e o Caribe também foram identificados como áreas que necessitam de revisão urgente em seus mapas de exposição.

Esses ajustes impactam diretamente a engenharia civil e o planejamento urbano. Muros de contenção e diques litorâneos podem precisar de maior robustez e altura, enquanto o zoneamento urbano em áreas vulneráveis tende a se tornar mais restritivo. A modernização de complexos industriais marítimos e portos também depende da precisão desses novos cálculos para garantir a segurança operacional.

Para mitigar o problema, os pesquisadores integraram quatro modelos digitais de elevação de terreno com dados atualizados de nível do mar via supercomputadores, disponibilizando esses conjuntos de dados em acesso aberto.

O trabalho não questiona a existência do aquecimento global ou a velocidade do derretimento das geleiras, mas foca na correção do "nível zero" do mar. A descoberta não prevê uma nova catástrofe, mas ajusta a percepção de quem já está exposto ao oceano, evidenciando a necessidade de governos de regiões litorâneas investirem em medições reais e contínuas de suas costas.

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